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A INICIAÇÃO ESPORTIVA E A ESPECIALIZAÇÃO PRECOCE

À LUZ DA TEORIA DA COMPLEXIDADE


– NOTAS INTRODUTÓRIAS

Adamilton Mendes Ramos


Graduado em Educação Física pela Faculdade Unirg, Gurupi (TO).

Ricardo Lira Rezende Neves


Mestre em Educação Física e coordenador do projeto Circuito de Avaliação e Desenvolvimento da Marcha, Equilíbrio
e do Condicionamento Físico em Idosos, Unirg, Gurupi (TO).

Resumo
A especialização precoce é o termo utilizado para expressar o processo pelo qual crianças tornam-se especializadas
em um determinado esporte mais cedo do que a idade apropriada para tal. A partir da problemática exposta é que
se propõe este estudo bibliográfico. A questão principal aqui discutida não é desfazer a importância do fenômeno
esporte na vida da criança, mas questionar a forma como ele vem sendo pedagogicamente conduzido dentro da ini-
ciação esportiva, desconsiderando a complexidade desse sistema.
Palavras-chave: iniciação esportiva – especialização precoce – complexidade.

Introdução Essa temática tem sido estudada há al-


gum tempo. Alguns estudiosos criticam e

A iniciação esportiva é o período em


que a criança começa a aprender de
forma específica e planejada a prática es-
outros defendem o programa de esportes
organizados para crianças. Nos estudos de
Piaget (1980), o autor afirma que a criança,
portiva. Santana (2005), procurando uma em um ambiente competitivo precoce, con-
iniciação esportiva que contemple toda a funde as regras com objetivos por causa do
complexidade humana, a entende como o seu realismo e por seu egocentrismo. Defende
período em que a criança inicia a prática ainda, que o esporte coletivo exerce fascínio
regular e orientada de uma ou mais moda- nas crianças muito mais pelo prazer da ati-
lidades esportivas, e o objetivo imediato é vidade (vivência) e pela coletividade do que
dar continuidade ao seu desenvolvimento de pela competição.
forma integral, não implicando em compe- Contrapondo-se a esta idéia, Santana
tições regulares. (2002) procura inter-relacionar a pedagogia
A especialização precoce é entendida por do esporte e o pensamento complexo com
Kunz (1994) como um processo que aconte- a iniciação esportiva. O autor considera que
ce quando crianças são introduzidas antes da a pedagogia do esporte tradicional resume
fase pubertária a um treinamento planejado e suas intervenções no campo da racionalida-
organizado em longo prazo, e que se efetiva de, deixando à margem do processo dimen-
em um mínimo de três sessões semanais, com sões humanas sensíveis, como afetividade,
o objetivo do gradual aumento do rendimen- sociabilidade, moralidade, e que, do pensa-
to, além, de participação periódica em com- mento racional, resultam atitudes pedagó-
petições esportivas. gicas como supervalorização da competição,

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aprimoramento precoce das habilidades téc- ta que a iniciação esportiva é marcada pela
nicas e táticas, composição precoce de equi- prática regular e orientada de uma ou mais
pes competitivas, entre outras. modalidades esportivas, e o objetivo imedia-
A partir da problemática exposta, torna- to é dar continuidade ao desenvolvimento da
se necessária a realização deste estudo bi- criança de forma integral, não implicando em
bliográfico, em virtude da complexidade do competições regulares.
tema e, sobretudo, pela divergência de idéias A partir do que os autores disseram ante-
e bases teóricas que o sustentam. Sendo as- riormente, pode-se entender que a iniciação
sim, o objetivo deste trabalho é “analisar o es- esportiva é o período em que a criança come-
tado da arte da produção científica referente ça a aprender, de forma específica e planejada,
à temática iniciação esportiva e especializa- a prática esportiva. Contudo, é necessário que
ção precoce, demonstrando a necessidade de se conheçam e respeitem suas características
aproximação com a pedagogia do esporte e a para que ela não seja transformada em um
complexidade”. mini-adulto.
Este artigo inicialmente apresenta algu- Almeida (2005) defende que a iniciação
mas definições de iniciação esportiva e es- esportiva deve ser dividida em três estágios.
pecialização precoce. Em seguida relata as O primeiro deles, chamado de iniciação des-
relações entre a complexidade e a iniciação portiva propriamente dita, ocorre entre oito
esportiva, já que esta contempla várias uni- e nove anos. Nessa fase, o objetivo do treina-
dades em um sistema dinâmico que está em mento é a aquisição de habilidades motoras
constante movimento. e destrezas específicas e globais, realizadas
É importante deixar claro que o objetivo através de formas básicas de movimentos e
não é contrapor a importância do fenômeno de jogos pré-desportivos. De acordo com o
esporte na vida da criança, mas questionar autor, nessa faixa etária, a criança encontra-se
a forma como ele, pedagogicamente, vem apta para a aprendizagem inicial dos esportes,
sendo conduzido dentro da iniciação espor- contudo, ainda não está apta para o esporte
tiva, sem considerar toda a complexidade coletivo de competição. Entende-se, assim,
desse sistema. que o esporte coletivo atrai as crianças muito
mais pelo prazer da atividade em si do que
A iniciação esportiva pela própria competitividade. O professor
que percebe como é o desenvolvimento mo-
Os estudos sobre a iniciação esportiva tor e cognitivo das crianças dessa faixa etária
não são recentes. Nesta perspectiva, Almeida tem a possibilidade de planejar o seu trabalho
(2005) diz que na década de 1970 encontra- de forma a torná-lo interessante e motivador,
se vasta bibliografia de autores estrangeiros baseado em atividades lúdicas e recreativas, na
sobre o assunto e, na década de 1980, essa busca de um aprendizado objetivo, eficiente e
preocupação passa a ser também dos auto- pouco monótono. O ideal, nessa fase, é ofere-
res nacionais. O termo iniciação esportiva é cer um grande número de oportunidades para
conhecido mundialmente como um processo o desenvolvimento das mais variadas formas
cronológico no transcurso do qual um sujeito de habilidades à criança, instrumentalizan-
toma contato com novas experiências regra- do-a com atividades motoras que poderão ser
das sobre uma atividade físico-esportiva. utilizadas em diversos esportes coletivos.
Tradicionalmente, a iniciação esportiva é Entre 10 e 11 anos de idade, fase do aper-
o período no qual a criança começa a apren- feiçoamento desportivo, a criança já experi-
der, de forma específica, a prática de um ou menta e participa plenamente de ações basea-
vários esportes. Santana (2005) acrescen- das na cooperação e colaboração. Neste caso, o

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jogo assume um aspecto sócio-desportivo, em geral e especializada. Na iniciação geral, dos
que seus participantes interagem desempe- dois aos 12 anos de idade, o objetivo maior
nhando um papel definido a ser cumprido. O é a formação, a preparação do organismo e
objetivo dessa etapa é introduzir os elementos esforços posteriores, o desenvolvimento das
técnicos fundamentais, táticas gerais e regras qualidades físicas básicas e o contato com os
através de jogos educativos e contestes e ativi- fundamentos das diversas modalidades. Não
dades esportivas com regras. Para o autor, essa deve haver uma preocupação centralizada na
é considerada uma excelente faixa etária para competição esportiva. Na fase seguinte, entre
o aprendizado. Assim, as atividades físicas es- 12 e 14 anos, o adolescente é orientado para a
portivas a serem oferecidas nessa faixa etária especialização esportiva.
devem ter o intuito de ampliar o repertório
de movimentos dos fundamentos básicos dos A especialização precoce
diversos esportes e, também, instrumentalizar
as crianças com elementos psicossociais que Uma questão bastante discutida e refle-
permitam a socialização e as ações cooperati- tida nos meios acadêmicos é a especialização
vas através de jogos e brincadeiras (ALMEI- esportiva precoce, realizada através da pro-
DA, 2005). posição de atividades esportivas competitivas
Na terceira e última etapa proposta por que, via de regra, são precedidas de rigorosos
Almeida (2005), chamada de introdução ao comportamentos inadequados ao desenvol-
treinamento, a criança entre 12 e 13 anos al- vimento infantil com o objetivo do máximo
cança um significativo desenvolvimento da desempenho esportivo.
sua capacidade intelectual e física. Assim, Com a mesma concepção de Kunz (1994),
o objetivo dessa fase é o aperfeiçoamento Barbanti (apud FUZIHARA; SOUSA, 2005)
das técnicas individuais, dos sistemas táti- diz que especialização precoce é o termo uti-
cos, além da aquisição das qualidades físicas lizado para expressar o processo pelo qual
necessárias para a prática do desporto. As crianças tornam-se especializadas em um
atividades físicas esportivas a serem ofereci- determinado esporte, mas numa idade não
das para atender as necessidades dessa faixa apropriada para tal. A prática especializada
etária devem visar ao aperfeiçoamento das das habilidades de um determinado esporte,
qualidades físicas, às técnicas individuais e sem a prática das atividades motoras, quase
às táticas (individuais e coletivas) dos diver- sempre traz como conseqüência o abandono
sos desportos, através de preparação física prematuro da prática esportiva.
e de práticas esportivas (jogos), nas quais a Já Marques (apud BRASIL, 2005) escla-
ação do professor oferece oportunidade para rece que a especialização esportiva caracteri-
o desenvolvimento corporal e para a melho- za-se por cargas de treinos muito intensos,
ria do desempenho individual dos alunos. que promovem rápidos desenvolvimentos da
O professor, enquanto adulto e profissional, prestação desportiva nas fases iniciais, mas
tem a responsabilidade de criar, através de que levam a um esgotamento prematuro da
atividades adequadas e diversificadas (mo- capacidade de rendimento, promovendo
tivadoras), condições que possibilitem às aquilo que se designa por barreiras de desen-
crianças e jovens uma aprendizagem indivi- volvimento.
dualizada, dentro do grupo, permitindo-lhes Para Añó (1997), a especialização pre-
solucionar conflitos em coletividade. coce define a prática intensa, sistematizada e
Já Pinni e Carazzatto (apud SANTANA, regular de crianças e jovens antes das idades
2005) preconizam que a iniciação esportiva da consideradas normais, como resultado da
criança deve obedecer a duas fases distintas: aplicação de sistemas de treinos não adequa-

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dos, ou a utilização literal dos sistemas de c) lesões: que advêm, principalmente,
treinos dos adultos em crianças ou jovens. pela prática em excesso e inadequada para
Em consonância, Incarbone (apud SAN- a faixa etária.
TANA, 2005) explica que especialização
precoce implica em competições regulares, A iniciação esportiva e sua complexidade
desenvolvimento de capacidades físicas, ha-
bilidades técnicas e táticas, onde o objetivo é A iniciação esportiva é um marco na vida
a performance. do ser humano. Moreira (2003) diz que de-
As possíveis conseqüências de se espe- pendendo desse primeiro contato, um simples
cializar a criança precocemente estão di- empurrão na piscina, por exemplo, pode le-
retamente ligadas ao fato de se adotar, por var a traumas, assim como uma base motora
longo período de tempo, uma metodologia construída satisfatoriamente pode gerar segu-
incompatível com as características, interes- rança. Porém, para que os benefícios aconte-
ses e necessidades dela. Logo, os possíveis çam, esta tem que ser realizada levando em
efeitos podem não se manifestar diretamen- consideração a fase de desenvolvimento do
te, mas no decorrer de temporadas (SAN- iniciante, pois se deve respeitar a necessidade
TANA, 2005). de experiências para a maturação somática e
A respeito disso, Kunz (1994) diz que os ainda tomar cuidado com traumas e/ou im-
maiores problemas que um treinamento es- pactos longitudinais nos membros da criança
pecializado precoce provoca sobre a vida da que está em crescimento.
criança e especialmente seu futuro, após encer- Nesta parte do trabalho será abordada a
rar a carreira esportiva, podem ser enumerados complexidade da iniciação esportiva. Contu-
como: do, é necessário, anteriormente, compreender
a) formação escolar deficiente, devido a o que significa “complexidade”. Para Morin,
grande exigência em acompanhar com êxito complexidade é
a carreira esportiva;
um fenômeno quantitativo, ou melhor,
b) a unilateralização de um desenvolvi- um fenômeno que possui uma quantidade
mento que deveria ser plural, e extrema de interações e interferências
c) reduzida participação em atividades, estabelecidas entre um grande número
brincadeiras e jogos do mundo infantil, indis- de unidades. Compreende, porém, não só
grandes quantidades de interações e unidades
pensáveis para o desenvolvimento da perso-
que desafiam nossas possibilidades de cálculo,
nalidade na infância. mas também incertezas, indeterminações
Santana (2005) acrescenta mais alguns e fenômenos aleatórios (MORIN apud
riscos da especialização precoce na criança: SANTANA, 2002, p.178).
a) estresse de competição: que se carac-
teriza por um sentimento de medo e inse- Assim, pode-se dizer que o esporte na in-
gurança, causado principalmente por confli- fância é um fenômeno muito complexo, que
tos oriundos de uma prática excessivamente não pode ser reduzido a um pensamento sim-
competitiva. A criança, neste caso, tem medo plista, como a tradicional seleção esportiva e
de errar, sente-se insegura e com a auto-esti- a tradicional eleição de um modelo ideal de
ma ameaçada; atleta.
b) saturação esportiva: que se manifesta Segundo Balbino (apud MOREIRA,
quando a criança apresenta sinais de desâ- 2003), o processo de treinamento para crian-
nimo (enjôo) e desinteresse em continuar a ças e jovens, quando realizado e conduzido de
prática do esporte. Sente-se, assim porque o forma adequada, pode trazer benefícios, por
praticou em excesso e quer abandoná-lo, e meio das práticas de iniciação e formação es-

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portiva, sendo o esporte em sua forma essen- a) investem no desenvolvimento das ca-
cialmente educativo. pacidades físicas e no controle destas e das
A iniciação deve possibilitar estímulos variáveis antropométricas;
diversificados tanto em nível de ambiente b) investem no aprimoramento, em geral
quanto no tocante aos movimentos diversifi- precoce, das habilidades técnicas e táticas;
cados, em contraposição à especialização pre- c) elegem um modelo de atleta ideal a ser
coce que não é necessária na vida da criança. perseguido;
E isso aproxima, cada vez mais, da perspecti- d) investem na seleção de crianças que
va da complexidade. atendam às exigências de um modelo de atle-
No entanto, a confusão está no entendi- ta ideal e que componham as equipes meno-
mento e na diferenciação de iniciação espor- res de competição;
tiva e especialização esportiva precoce, sendo e) participam de campeonatos nos quais
a primeira importante desde a mais tenra ida- se reproduzem estruturas de competição do
de e a segunda, no mínimo, duvidosa quanto esporte profissional;
à sua eficiência. Assim, o futuro esportivo da f ) elegem a competição como o principal
criança depende, em grande parte, desse en- referencial para avaliar as crianças.
tendimento para o êxito na sua vida (MO- Essa maneira de pensar alimenta a crença
REIRA, 2002). de que o esporte obedece a um processo linear
O pensamento simplista e reducionista de desenvolvimento, ou seja, existe uma gênese
que permeia hoje a iniciação esportiva deve em que há um ponto de partida e outro de che-
ser imediatamente superado. A iniciação da gada − o ideal de atleta pretendido. Por conse-
criança nas atividades esportivas deve ser ob- qüência, define as tarefas dos professores e das
servada com muito critério e muito cuidado, crianças esportistas: para os primeiros basta
para que a prática esportiva não valorize ape- que selecionem as segundas e implementem
nas os resultados atléticos, desconsiderando procedimentos pedagógicos que dêem conta
os fatores educacionais advindos da prática de capacitá-las nas diferentes etapas de treina-
esportiva. A primazia da iniciação esporti- mento. Às crianças basta que se submetam às
va não está nas habilidades específicas e sim exigências preestabelecidas em cada etapa do
na amplitude de possibilidades de estímulos treinamento (SANTANA, 2002).
para o desenvolvimento e crescimento físico, O autor ainda salienta que não se trata
fisiológico, desenvolvimento motor, aprendi- de excluir, da iniciação esportiva, as áreas de
zagem motora, desenvolvimento cognitivo e conhecimento que se encarregam de clarificar,
afetivo-social (CAPITANIO, 2003). por exemplo, os estágios de desenvolvimento
motor, os períodos indicados para se desen-
Da racionalidade à Pedagogia do Esporte: volver as diferentes capacidades, a melhor fase
ampliando o enfoque para aprender as habilidades motoras, as impli-
cações maturacionais e fisiológicas. Tampouco
Vários autores têm confrontado as idéias de excluir o surgimento de crianças talentosas
da racionalidade. Dentre eles, Santana (2002) ou de desconsiderar o fato de que as equipes
afirma que a pedagogia do esporte na infância de base contêm possíveis crianças que chega-
sustenta uma prática pedagógica que se resu- rão ao esporte profissional. Trata-se de pontu-
me às intervenções no campo da racionalida- ar que não dá para reduzir a ação do pedagogo
de e da produtividade. Nesse sentido, o autor esportivo apenas à consideração e consecução
sustenta que os professores de Educação Fí- desses e de outros fatores racionais.
sica tendem a tomar atitudes que justificam Tibola (2001) defende que nas várias fases
essa afirmativa: do desenvolvimento, a motricidade, a afetivi-

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dade, a sociabilidade e a inteligência passam cionar-se com o próprio corpo, com o espaço
por modificações e apresentam características e os objetos, com os outros, a presença de de-
diferenciadas em cada momento. O que difere ficiências físicas e perceptivas, configuram um
de pessoa para pessoa é a intensidade rítmica aluno real e não virtual, um indivíduo com
desse desenvolvimento. O desenvolvimento características próprias, que pode ter mais
físico, sem dúvida alguma, é importante, mas facilidade para aprender uma ou outra coisa
é tanto quanto os aspectos sociais, psicoló- (ALVES, 2004).
gicos e culturais, cabendo ao profissional de O êxito e o fracasso devem ser dimensio-
Educação Física trabalhar todos esses aspec- nados, tendo como referência os avanços rea-
tos no que se refere à iniciação esportiva, pois lizados pela criança em relação ao seu próprio
através disso, pode-se considerar e formar o processo de aprendizagem e não por uma ex-
indivíduo de uma maneira global e complexa. pectativa de desempenho predeterminada.
O conhecimento que necessita se ter domínio No aspecto social, a iniciação esportiva
refere-se a uma visão abrangente do ser hu- pode ajudar a criança a estabelecer relações
mano nos aspectos afetivo, cognitivo e motor, com as pessoas e com o mundo; no aspecto
uma visão clara sobre os limites e possibilida- filosófico, pode ajudá-la a questionar e com-
des de sua área (SILVA, 2004). preender o mundo; no aspecto biológico,
Quanto ao domínio cognitivo, Alves conhecer, utilizar e dominar o seu corpo; no
(2004) o considera referente à aquisição de co- aspecto intelectual, auxiliar no seu desenvol-
nhecimentos básicos de anatomia e fisiologia vimento cognitivo (ALVES, 2004).
humanas, noções de biomecânica, bem como Ainda sobre o domínio social, com base
aspectos básicos do desenvolvimento das vari- na teoria da aprendizagem social, propõe
áveis de aptidão física que os capacite à prática Rappaport (apud VILANI, 1998) que as
de atividades físicas de forma eficaz e segura. experiências, diretas do sujeito e as observadas
Ainda nesse domínio, a aquisição de infor- em outras pessoas, determinam a gama de
mações a respeito da evolução histórica e do comportamentos disponível no repertório de
significado que as atividades motoras assumem um dado organismo.
em diferentes épocas, culturas e níveis sociais, Assim, uma aula de Educação Física ou
fornecendo à criança um sentimento de ca- um treino desportivo, pode ser percebido
pacidade no sentido de reproduzir, modificar como um microssistema que apresenta diver-
e/ou criar atividades que julgar adequadas às sas variáveis de ordens psicossociais inerentes
suas necessidades biopsicossociais, bem como ao desenvolvimento afetivo-social e, portan-
desenvolvendo o respeito pela heterogeneida- to, extremamente complexo.
de presente no multiculturalismo brasileiro.
Quanto ao domínio afetivo-social, desta- Considerações finais
cam-se os estudos de Alves (2004). Para ele,
a afetividade é o território dos sentimentos, A partir dos diferentes discursos, po-
das paixões, das emoções, por onde transita dem-se evidenciar alguns fatores a favor da
medo, sofrimento, interesse, alegria. A afeti- iniciação esportiva. Primeiro, existe uma divi-
vidade não pode ser negligenciada, já que esta são etária orientando a iniciação esportiva da
conduz ritmo à expressão corporal. criança, o que implica, por parte do professor,
As características individuais e as vivên- estabelecer objetivos, conteúdos, metodologia
cias anteriores do aluno ao deparar com cada e avaliação diferenciados. Significa dizer que
situação constituem o ponto de partida para o não se deve dar a uma criança de seis, sete
processo de ensino e aprendizagem da prática anos, o mesmo tratamento e treinamento que
esportiva. As formas de compreender e rela- se daria a um adolescente. Segundo, fica bem

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claro nas abordagens que há uma fase antece- sociedade que se afetam permanentemente e,
dendo a outra – a geral antecede a especiali- por isso, exige um olhar dos pedagogos es-
zada. Subentende-se que qualquer violação a portivos que não a reduza, como tem aconte-
essa postura científica adotada pelos autores cido em alguns tipos de esporte no Brasil, ao
é, no mínimo, passível de questionamento. paradigma vigente, baseado na especialização
E, por último, não se enfatiza, na iniciação, a precoce, na busca do talento esportivo e na
busca da especialização esportiva e da excessi- excessiva competitividade.
va competitividade como fatores determinan-
tes para rendimento e avaliação. Fatores estes Sport initiation and early specialization in the light
evidenciados, posteriormente, na fase de es- of the complexity theory: introductory notes
pecialização. Apesar da especialização não ser Abstract
visada precocemente, é importante observar Early specialization is the used term to define the pro-
que essa divisão por idades reduz a iniciação cess by which children become specialized in a specific
esportiva a uma visão que a simplifica apenas sports practice early than the appropriate age. This bi-
bliographical research work does not deny the impor-
do ponto de vista orgânico e motor. A criança
tance of sports practice in the life of children, but it
também deve ser respeitada intelectual, social questions the way in which it has been pedagogically
e emocionalmente. Nessa direção, o professor conducted within sport initiation activities that fail to
deve levar em consideração quais são as ca- consider it as a complex system.
racterísticas pertinentes a esses domínios. Keywords: sport initiation – early specialization
– complexity.
A pedagogia do rendimento orienta-se
pelo processo em que as crianças são subme- Iniciación deportiva y la especialización precoz a la luz
tidas a treinamentos e competições exacerba- de la teoría de la complejidad – notas introductorias
das antes da idade adequada para tal, assim
Resumen
despreza-se a riqueza das práticas lúdicas em
La especialización precoz es el témino utilizado para
nome da preparação de futuros atletas. expresar el proceso por el cual los niños se corvierten
Entretanto, em contrapartida à pedagogia especialistas en determinado deporte a temprana edad
do rendimento, surge a pedagogia do esporte de que en la edad adecuada para el mismo. Es partien-
à luz da complexidade que trata o esporte in- do de la temática expuesta que se propone este estudio
bibliográfico. Lo principal aquí discutido no es desha-
fantil e a iniciação esportiva como um período cerse de la importancia del fenómeno deporte en la vida
relevante para se desenvolver as capacidades del niño, sino plantear la manera cómo el deporte viene
motoras, para se aprender as habilidades téc- pedagógicamente siendo conducido dentro de la ini-
nicas e táticas, para se aprender a cooperar, ciación deportiva sin considerar la complejidad de ese
sistema.
para construir autonomia, para se aprender a
Palabras-clave: iniciación deportiva – especialización
gostar de esporte, para se aprender uma cultu- precoz – complejidad.
ra de lazer esportivo, para se aprender a com-
petir, a socializar conhecimentos, a dialogar, a Referências
sociabilizar-se, a motivar-se, para fomentar a
auto-estima, isto é, para equilibrar o que é ra- ALMEIDA, Luiz Tadeu Paes de. Iniciação
cional e o que é sensível; é preciso participação Esportiva na escola – a aprendizagem dos
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optar pela especialização em uma. boletimef.org.br>. Acesso em: 25 out. 2005.
É necessário frisar que esse processo de
aproximação, na perspectiva da complexida- ALVES, Geane de Souza. A Educação Física
de, demanda tempo. A iniciação esportiva é na primeira fase do Ensino Fundamental. 2004.
um fenômeno complexo, permeado de rela- 57 f. Monografia (Licenciatura em Educação
ções de força entre diferentes segmentos da Física) – Fundação Unirg, Gurupi, 2004.

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