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PODER JUDICIÁRIO
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro
DÉCIMA PRIMEIRA CÂMARA CÍVEL
Agravo de Instrumento nº 2009.002.20523
Relator: Desembargador JOSÉ CARLOS DE FIGUEIREDO

AGRAVO DE INSTRUMENTO.
DISSOLUÇÃO DE SOCIEDADE DE FATO.
RELAÇÃO HOMOAFETIVA.
COMPETÊNCIA DO JUÍZO DA VARA DE
FAMÍLIA. ALEGAÇÃO DE UNIÃO
ESTÁVEL. INTERPRETAÇÃO
ANALÓGICA – IMPOSSIBILIDADE.
PRECEDENTES DESTE TRIBUNAL.

RECURSO PROVIDO.

Vistos, relatados e discutidos estes autos do


Agravo de Instrumento nº 20523/2009 em que figuram como
agravante MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO
DE JANEIRO, como agravada 1 ANA CRISTINA RAMADA
RANGEL e como agravada 2 ANA MARIA CORREA DE
OLIVEIRA,

ACORDAM os Desembargadores que compõem a


Décima Primeira Câmara Cível do Tribunal de Justiça do
Estado do Rio de Janeiro, à unanimidade, em DAR provimento ao
recurso, nos termos do voto do Desembargador Relator.

RELATÓRIO

Agravo de Instrumento interposto contra a


decisão que rejeitou a preliminar de incompetência do Juízo
suscitada pela parte ré e sustentada pelo Ministério Público,
determinando o prosseguimento do feito, ação onde se pretende o
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reconhecimento de união homoafetiva com pedidos cumulados de


partilha de bens e prestação de alimentos.

A suspensividade foi deferida (fls. 37).

O recurso foi contrariado, é tempestivo, o


Agravante é isento do preparo e as partes estão regularmente
representadas.

A d. Procuradoria de Justiça oficiou às fls. 58/61.

É o relatório.

VOTO DO RELATOR

A questão versa sobre a competência do Juízo


para o processo e julgamento da ação onde se pretende o
reconhecimento e de dissolução de união “estável” homoafetiva,
envolvendo Ana Maria Correa de Oliveira e Ana Cristina Ramada
Rangel (fls. 09/19).

Como salientou o Ministério Público às fls. 59 “é


forçoso reconhecer que o C.O.D.J.E.R.J. estabeleceu
taxativamente a competência da Vara de Família, e no art. 85, I,
diz que compete aos juízes de direito, especialmente em matéria
de família (g) as ações decorrentes de união estável e sociedade
de fato entre homem e mulher, como entidade familiar (art. 226,
parágrafos 3º e 4º da Constituição da República Federativa do
Brasil), regulamentadas em leis ordinárias.

E, ainda, o art. 83 do mesmo Código estabelece


uma competência residual das Varas Cíveis para as demais
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demandas, o que remete a hipótese do feito à distribuição em


favor de uma delas, considerada a matéria a ser discutida.

A despeito de ter sido invocado um julgado onde o


Superior Tribunal de Justiça reconheceu a competência do juízo
de família, o entendimento ainda predominante neste Tribunal é o
de que deve ser feita a interpretação da norma de organização
judiciária estadual, a ensejar que o feito tramite perante o juízo
cível.

Neste sentido, à guisa de exemplo, o julgado assim


ementado:

RELAÇÃO HOMOAFETIVA. ALIMENTOS


VARA DE FAMILIA. UNIAO ESTÁVEL
INTERPRETAÇÃO ANALÓGICA – IMPOSSIBILIDADE.
Relação homoafetiva. Ação de alimentos. Competência.
Vara de família. Analogia com a união estável.
Impossibilidade. 1. As ações de alimentos cuja causa de
pedir seja a relação homoafetiva, pretendendo
equiparação por analogia com a união estável entre um
homem e uma mulher, devem ser analisadas pelo juízo de
família, considerando que não se está discutindo
sociedade de fato. 2. No mérito, a equiparação da relação
homoafetiva com a instituição da família não se mostra
admissível enquanto o texto constitucional, bem como o
direito infraconstitucional (art. 1.723 do C. Civil),
referirem expressamente que a entidade familiar é
formada por um homem e uma mulher. 3. A única
semelhança que de princípio se pode apontar da relação
homossexual com a família nascida do relacionamento
entre pessoas de sexos diferentes, é o afeto. Mas o afeto,
ainda que seja reconhecido pela doutrina moderna do
direito de família como o elemento mais importante da
relação familiar, ainda não é fonte por si só de
obrigações. 4. Ainda assim, se a relação chegou ao fim, e
portanto não há mais afeto, é impossível julgar a ação
reconhecendo obrigação alimentar cuja fonte seria
exatamente o afeto, inexistente a esta altura. Quando se
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desfaz um vínculo afetivo que resultou em família


reconhecida pela ordem jurídica, como a decorrente do
casamento ou da união estável, o que gera a continuidade
do devedor de solidariedade é o vínculo jurídico,
inexistente na relação homoafetiva. 5. Portanto, ainda
que a relação entre as partes tenha se formado com base
na liberdade e no afeto, hoje estão elas desavindas,
sendo certo que não pode existir vínculo obrigacional sem
fonte, que se resumem, na lição de Caio Mário, a duas: a
vontade e a lei. Apelação Cível nº 4634/2007, DES.
MARCOS ALCINO A TORRES - Julgamento: 24/04/2007 -
DECIMA SEXTA CAMARA CIVEL.

No mesmo sentido o julgamento das


Apelações Cíveis nºs 30031/2008, 483/2007, 9002/2008,
trazidas à colação pelo Ministério Público.

Por tais razões, DÁ-SE provimento ao recurso,


para reformar a decisão recorrida e determinar a remessa dos
autos ao juízo cível que couber por distribuição.

Rio de Janeiro, 21 de outubro de 2009.

Desembargador JOSÉ CARLOS DE FIGUEIREDO


RELATOR

Certificado por DES. JOSE C. FIGUEIREDO


A cópia impressa deste documento poderá ser conferida com o original eletrônico no endereço www.tjrj.jus.br.
Data: 10/11/2009 16:22:04Local: Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro - Processo: 2009.002.20523 - Tot. Pag.: 4