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Olá, aluno (a)!

Vamos dar início a mais uma seção do nosso NPJ de Direito


Constitucional?
Vamos rapidamente retomar o nosso contexto: o Governador do Estado de
Pernambuco, diante da nulidade do Decreto X/2018, editou um novo ato
normativo, o Decreto Y/2019 nomeando o Sr. Martiniano Santos para o cargo
de Secretário Estadual de Meio Ambiente. Ocorre que a Sra. Cristina Veiga,
que ocupara o cargo até então, inconformada com a sua exoneração e
nomeação do Sr. Martiniano, impetrou mandado de segurança visando anular o
ato, o qual foi encaminhado para a PGE para providências.
Após a defesa elaborada pelo Procurador do Estado, Dr. Bernardo e o regular
trâmite processual, o Mandado de Segurança impetrado pela Sra. Cristina foi
julgado improcedente, e o Decreto Y/2019 permaneceu vigente, sendo
confirmada a nomeação do Sr. Martiniano para o cargo por meio da decisão
judicial publicada no dia 30/01/2019. Em face disso, a posse do Sr. Martiniano
foi agendada para o dia 15/02/2019.
Entretanto, nesses dias que antecederam a posse, foi publicamente veiculada
a informação de que o Sr. Martiniano Santos estava sendo investigado pela
prática de crimes durante a vigência do seu mandato como Deputado Estadual,
nos anos de 2013 a 2017, os quais até então estavam sendo apurados em
sigilo, dos quais somente o Governador do Estado estava ciente.
Surgiu então a desconfiança em toda a população local de que o Decreto
Y/2019 que nomeou o Sr. Martiniano para o cargo de Secretário tem por
objetivo protegê-lo, pois enquanto ocupante do cargo de Secretário de Estado
teria a prerrogativa do foro privilegiado. Desconfiança que foi confirmada pelo
vazamento da gravação de uma ligação entre o Governador e o Sr. Martiniano
Santos, onde o Chefe do Executivo dizia: “Fique tranquilo, meu amigo, vou dar
um jeito de lhe tirar dessa. Seu julgamento vai ser por gente grande!”.
Com base nisso, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil,
ciente da situação, e preocupado em salvaguardar a ordem jurídica
constitucional, ajuizou ação de controle concentrado de constitucionalidade,
alegando que o Decreto Y/2019 descumpre com preceitos básicos da
Constituição Federal, como o do juiz natural, e que por isso deve ser
considerado inconstitucional.
Agora você aluno, na qualidade de advogado membro do Conselho Federal da
Ordem dos Advogados do Brasil, deverá redigir a peça processual
correspondente à ação constitucional proposta pela Entidade de classe para
arguir o descumprimento de preceitos constitucionais pelo Decreto Y/2019.

DO CONTROLE DE CONSTITUCIONALIDADE
Conforme vimos anteriormente, o Poder Público brasileiro se divide em: Poder
Executivo, Poder legislativo e Poder Judiciário, os quais estão submetidos às
normas e princípios insculpidos na Constituição em virtude do reconhecimento
da sua supremacia e força vinculante.
Dessa premissa, surge a necessidade de um controle dos atos praticados pelo
Poder Público, sobretudo os atos normativos, para verificar a sua
compatibilidade com o texto constitucional e, a partir disso, se for o caso,
declarar a sua constitucionalidade ou inconstitucionalidade. A esse controle,
dá-se o nome de “controle de constitucionalidade”, que pode se dar das
seguintes formas:
 Com relação a quem o realiza:

 Controle Político: quando é praticado por um órgão político e


não jurisdicional, como o Legislativo. No Brasil, esse controle
existe no âmbito do Congresso Nacional, pela Comissão de
Constituição e Justiça, por exemplo, ou quando o Chefe do
Executivo veta uma lei com base em alegação e
inconstitucionalidade (art.66,§1º da CF/88).
 Controle Judicial: É aquele realizado por um órgão jurisdicional,
Tribunais ou juízes.

 Com relação ao momento em que ocorre:

 Controle Preventivo: É o controle realizado antes da


promulgação do ato, antes do mesmo ser finalizado, entrar em
vigor e produzir efeitos. No sistema brasileiro, o controle político
ao que nos referimos acima é um controle preventivo, pois se dá
durante o processo de elaboração do ato normativo.
 Controle Repressivo: É o controle realizado quando o ato já está
formalizado, já faz parte do ordenamento jurídico. O controle
judicial, em regra, é repressivo.
 Com relação à forma com que ocorre:

 Controle Incidental: quando a inconstitucionalidade do ato é


levantada por meio de uma ação que não tem como fim, em si
mesma, o controle, ela objetiva uma outra finalidade, mas a
análise da constitucionalidade é levantada por ela.
 Controle Principal: Quando o controle de constitucionalidade
ocorre através de uma ação própria, proposta com o objetivo
específico de analisar a inconstitucionalidade de determinado ato.

PONTO DE ATENÇÃO

A inconstitucionalidade de um ato normativo consiste na sua incompatibilidade


direta com a Constituição e só pode ser declarada em face da Constituição
vigente a época da sua edição. O STF já consolidou o entendimento pela
inexistência de inconstitucionalidade superveniente.
Por exemplo, imagine que uma determinada lei foi editada antes da
Constituição de 1988, e com a entrada em vigor da nova Carta veio a ser
questionada a sua compatibilidade com a mesma. Nesse caso, não se deve
falar em inconstitucionalidade, pois o que ocorre quando as leis anteriores não
são incompatíveis com a Constituição é a não recepção das mesmas, ou seja,
elas sequer permanecem no ordenamento jurídico, são revogadas.

DOS MODELOS JURISDICIONAIS DE CONTROLE DE


CONSTITUCIONALIDADE
Certamente, você já ouviu falar em modelos de controle de constitucionalidade,
não é aluno? Isso porque o estudo dos modelos é um dos aspectos mais
relevantes no controle de constitucionalidade.
Historicamente, têm-se dois modelos distintos de controle: o modelo austríaco
ou concentrado e o modelo americano ou difuso. O desenvolvimento e a
expansão desses dois modelos para outros países geraram o surgimento de
um novo modelo híbrido, que comunga características tanto do modelo
tradicional austríaco como do modelo americano e, por isso, atualmente é
chamado de modelo misto, modelo hoje adotado no Brasil.
Dessa forma, hoje o Brasil possui um sistema de controle de
constitucionalidade inspirado tanto na tradição europeia, como na tradição
americana. É um sistema bem amplo, pois admite que o controle da
constitucionalidade dos atos normativos seja feito diretamente pela Corte
Constitucional, STF, como por qualquer juiz em sede de um caso concreto.
Vejamos:
 Controle de Constitucionalidade Concentrado/Abstrato:

No Brasil, a análise da constitucionalidade de ato normativo em face da


Constituição Federal, é realizada pelo Supremo Tribunal Federal, em
decorrência do seu papel de guardião da Constituição Federal (art. 102 CF/88).
Quando a alegada inconstitucionalidade for suscitada em face de Constituição
Estadual, a competência é do Tribunal de Justiça do Estado (art. 125, §2º da
CF/88).
Diz-se concentrado porque a competência para a análise da
constitucionalidade do ato concentra-se nas mãos de um órgão especial
mediante o julgamento de ações específicas propostas para este fim, e
abstrato porque analisa a lei em tese, e não a sua aplicabilidade em um caso
concreto.
As ações específicas que podem ser propostas no âmbito do Controle de
Constitucionalidade são:
1. Ação Direita de Inconstitucionalidade (ADI): prevista no art. 103 da CF/88
e procedimento regulamentado pela Lei nº 9.868/99.

 Legitimidade ativa: pode ser proposta pelo Presidente da República, Mesa


do Senado Federal, Mesa da Câmara dos Deputados, Mesa da Assembleia
Legislativa ou Câmara Legislativa do Distrito Federal, Governador do Estado
ou do Distrito Federal, Procurador Geral da República, Conselho Federal da
OAB, partido político com representação no Congresso Nacional e por
confederação sindical ou entidade de classe de âmbito nacional.

PONTO DE ATENÇÃO

Apesar de a lei não falar expressamente, a jurisprudência do STF faz uma


distinção entre os legitimados, os classificando em legitimados universais e
legitimados especiais.
Os legitimados universais, são aqueles que, em razão da função que
exercem, estão autorizados a exercer a defesa da Constituição
incondicionalmente, são eles: Presidente da República, Mesa do Senado
Federal e da Câmara dos Deputados, Procurador Geral da República,
Conselho Federal da OAB e partidos políticos com representação no
Congresso.
Já os legitimados especiais, são aqueles autorizados a propor ação de de
inconstitucionalidade quando houver pertinência temática, ou seja, quando o
seu objetivo estatutário ou institucional tiver correspondência com o conteúdo
material da norma, são eles: Governador do Estado e do Distrito Federal,
Mesas da Assembleia e da Câmara Legislativa, entidades de classe ou
confederações sindicais.
 Legitimidade passiva: órgãos ou autoridades responsáveis pela edição da
lei ou ato normativo impugnado.

 Competência: vai depender de que ente federativo o ato ou lei impugnada


emana, se for editado pela União ou Estados, a competência será do STF,
conforme art. 102, ‘a’ da CF/88. Se for um ato ou lei editado por município, a
inconstitucionalidade será arguida em face da Constituição estadual, logo a
competência para o julgamento é do Tribunal de Justiça do respectivo
Estado, conforme art. 125, §2º da CF/88.

 Objeto: leis ou atos normativos federais ou estaduais em face da


Constituição Federal (art. 102, ‘a’ CF/88) e leis ou atos normativos
municipais em face da Constituição Estadual (art. 125, §2º CF/88).

PONTO DE ATENÇÃO

Durante muito tempo, o entendimento jurisprudencial firmado pelo STF determinava


o não cabimento de ADI contra lei de efeito concreto, a qual se entende como uma
lei apenas no sentido formal, o seu conteúdo não contém a abstratividade
necessária, possuem um destinatário certo e mais se assemelham a um ato
administrativo que a uma lei, apesar de serem assim consideradas sob o aspecto
formal. Entretanto, o STF mais recentemente no julgamento da ADI – 4048 MC/DF
alterou o entendimento e passou a admitir a ADI contra algumas leis ditas de efeito
Legitimidade passiva: órgãos ou autoridades responsáveis pela
concreto, como leis orçamentárias e leis para a “criação de municípios”. Todavia,
ainda háedição
algumada polêmica
lei ou atosobre
normtivo impugnado.
o assunto quando a lei de efeitos concretos se
refere a outras situações que não as já analisadas pelo STF.

 Requisitos formais: a petição inicial deve indicar qual a lei ou ato normativo
impugnado e quais os fundamentos jurídicos de cada impugnação, ou seja,
no que e porque ele viola diretamente a Constituição Federal. Deve ser
apresentada em duas vias, ser acompanhada de instrumento de procuração
quando subscrita por advogado, e conter cópias da lei ou do ato normativo
impugnado e dos documentos necessários para comprovar a impugnação.
Além disso, deve conter de forma expressa o pedido e suas especificações.

 Admite-se o pedido de medida cautelar em ADI para suspender os


efeitos da lei ou do ato impugnado Caso deferida a cautelar, torna-se
aplicável a legislação anterior acaso existente, salvo expressa manifestação
em sentido contrário. (art.11, §2º da Lei 9.868/99)
PONTO DE ATENÇÃO

A cautelar é uma espécie de tutela de urgência prevista no art.294, parágrafo único


do CPC/2015. As tutelas de urgência, tanto cautelar como antecipada, são
concedidas quando há elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o
perigo de dano ou o risco ao resultado útil do processo, conforme determina o art.
300 do mesmo Código.
Nesse sentido, ao elaborar o pedido de medida cautelar em qualquer ação,
inclusive nas ações de controle concentrado de constitucionalidade é preciso
demonstrar o preenchimento dos famosos requisitos do fumus boni iuris e do
periculum in mora, para convencer o julgador da urgência da medida e a satisfação
dos requisitos necessários.

2. Ação Direita de Inconstitucionalidade por omissão (ADO): prevista no art.


103, §2º da CF/88 e na Lei nº 9.868/99, mesma que regulamenta a ADI e a
ADC.

 Legitimidade ativa: os mesmos legitimados para propor a ADI e a ADC,


conforme art. 12-A da Lei.

 Competência: mesma regra aplicada à ADI.

 Legitimidade passiva: o responsável por editar o ato ou lei necessária


para dar efetividade à norma constitucional.

 Objeto: em termos gerais, é a morosidade dos órgãos competentes para a


concretização da norma constitucional que acaba comprometendo a sua
efetividade. De acordo com a Lei, em termos técnicos é a “omissão
inconstitucional total ou parcial quanto ao cumprimento de dever
constitucional de legislar ou quanto à adoção de presidência de índole
administrativa”, do que se depreende que a omissão impugnada pode ser
federal, estadual ou ainda administrativa, desde que afetem a efetividade de
norma constitucional.

 Requisitos formais: a petição inicial deve indicar a omissão


inconstitucional total ou parcial quanto ao cumprimento de dever
constitucional de legislar ou quanto à adoção de providência de índole
administrativa, indicando ainda o pedido, com suas especificações e deve
ser apresentada, da mesma forma que a ADI, em duas vias devendo conter
cópias dos documentos necessários para comprovar a alegação de
omissão.

 Admite-se o pedido de medida cautelar da ADO somente em caso de


excepcional urgência e relevância da matéria, a qual poderá consistir na
suspensão da aplicação da lei ou do ato normativo questionado, no caso de
omissão parcial, bem como na suspensão de processos judiciais ou de
procedimentos administrativos, ou ainda em outra providência a ser fixada
pelo Tribunal.

3. Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC): prevista também no art.


103 da CF/88 e procedimento regulamentado pela Lei n° 9.868/99.

 Legitimidade ativa: conforme o art. 103 da CF/88 possui os mesmos


legitimados ativos da ADI, seguindo a mesma regra da pertinência temática
quanto à diferenciação entre legitimados universais e especiais.

PONTO DE ATENÇÃO

Para a propositura da ADC, além da legitimidade ativa, exige-se a


comprovação da existência de controvérsia ou dúvida relevante quanto a
legitimidade da norma, ou seja, quanto a sua constitucionalidade. Para requerer
a declaração da sua constitucionalidade, é preciso que a norma objeto da ação
suscite controvérsias, por exemplo: órgãos jurisdicionais diversos passam a
alegar em julgados a inconstitucionalidade de uma lei, diante disso, aquele ente
legitimidado (art.103 da CF/88) que esteja convencido da constitucionalidade
da lei em causa, poderá ajuizar a ADC. Sendo assim, a legitimidade para a
propositura da ação não se limita a legitimidade prevista na CF/88, mas
também a uma legitimidade em concreto que é um requisito de admissibilidade
previsto no art. 14, III da Lei 9.868/99.

 Competência: o julgamento da ADC compete ao STF, conforme disciplina o


art. 102, ‘a’ da CF/88.

 Legitimidade passiva: Não há polo passivo por se tratar de uma ação


declaratória de jurisdição voluntária.

 Objeto: lei ou ato normativo federal. Ao contrário da ADI, não cabe contra lei
ou ato normativo estadual.

 Requisitos formais: à petição inicial, aplicam-se os mesmos requisitos da


ADI: deve conter a indicação do dispositivo ou dispositivos sobre os quais
versa a ação, bem como dos fundamentos jurídicos do pedido, e a
formulação do pedido com suas especificações. Além disso, na petição
inicial da ADC deve estar demonstrada de forma expressa a existência de
relevante controvérsia acerca da lei ou ato normativo que se pretende ver
declarada a constitucionalidade.

 Conforme prevê o art. 21 da Lei n° 9.868/99, admite-se a medida cautelar


na ADC, a qual consiste na determinação de que os juízes e os Tribunais
suspendam o julgamento dos processos que envolvam a aplicação da lei
ou do ato normativo objeto da ação até seu julgamento definitivo.
4. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF):
prevista no art. 102, §1 º da CF/88 e regulamentada pela Lei n° 9.882/99.

 Legitimidade ativa: os mesmos legitimados da ADI.

 Competência: o julgamento da ADPF compete ao STF, conforme art. 102,


§1º da CF/88.

 Legitimidade passiva: da pessoa jurídica de direito público que praticou


ou editou o ato impugnado.

 Objeto: tem por objeto evitar ou reparar a lesão a preceito fundamental,


por ato do Poder Público, seja ele normativo ou não. Logo, o objeto da
ADPF é bem mais amplo que o das outras ações de controle concentrado
de constitucionalidade, pois a lei não especifica que deve ser um controle
de lei ou ato normativo, mas de qualquer ato, além do que admite que o ato
seja emanado por qualquer esfera do Poder (federal, estadual, distrital ou
municipal), inclusive os anteriores à Constituição de 1988, conforme art. 1º,
I da Lei n° 9.882/99.

 Requisitos formais: a petição inicial da ADPF deverá indiciar: o ato


impugnado, qual ou quais os preceitos fundamentais violados,
demonstrando a comprovação da respectiva violação, o pedido com suas
especificações e, ainda, se for o caso, a comprovação da existência de
controvérsia judicial relevante sobre a aplicação do preceito. Deve ainda
ser apresentada em duas vias, contendo cópias do ato questionado e dos
documentos necessários para comprovar a impugnação e, se for o caso,
instrumento de mandato.

 Admite-se a medida cautelar com base no art. 4º.§3º da Lei n° 9.882/99,


a qual, da mesma forma que na ADC, consistirá na determinação de que
juízes e tribunais suspendam o andamento de processo ou os efeitos de
decisões judiciais, ou de qualquer outra medida que apresente relação
com a matéria objeto da arguição de descumprimento de preceito
fundamental, salvo se decorrentes da coisa julgada

 Controle de Constitucionalidade Difuso/Concreto:

Chama-se difuso porque pode ser realizado por qualquer órgão jurisdicional,
inclusive por um juiz de primeira instância, em qualquer ação judicial onde seja
levantada a inconstitucionalidade de um determinado ato normativo, ao
contrário do concentrado que compete a um órgão especial e feito por meio de
uma ação específica. É concreto, porque neste tipo de controle a
constitucionalidade da lei é analisada no âmbito de um caso concreto, e não a
lei em tese. Logo, não existem ações específicas nesse tipo de controle, ele
pode ser realizado no bojo de qualquer processo judicial.
DOS PRECEITOS FUNDAMENTAIS COMO PARÂMETRO DE CONTROLE
DE CONSTITUCIONALIDADE.

Aluno, em decorrência da supremacia da Constituição, todas as demais


normas estão submetidas ao controle de constitucionalidade. Qualquer ato
normativo pode ser objeto de controle de constitucionalidade, não apenas leis
emanadas pelo Poder Legislativo. Decretos, Regulamentos, e outros atos
normativos editados pela Administração Pública são passíveis desse controle,
eis que se também se submetem às normas e princípios constantes na
Constituição.
Entretanto, vimos que além das leis e atos normativos os demais atos do Poder
Público também podem ser objeto de controle de constitucionalidade por meio
da ADPF, o que faz com que toda a atividade administrativa esteja subordinada
à Constituição. Isso porque a ADPF é uma ação mais abrangente, porém com
um parâmetro de controle mais restrito e excepcional, que são os chamados
preceitos fundamentais.
Mas o que são os preceitos fundamentais, afinal?

A sua conceituação não está prevista em lei, logo essa tem sido uma tarefa
exercida pelo STF no âmbito da sua competência de garantidor e intérprete da
Constituição. Alguns preceitos fundamentais estão expressos no próprio texto
constitucional, sendo de fácil aferição, como, por exemplo, os direitos e
garantias fundamentais constantes no art. 5º da CF/88, as demais cláusulas
pétreas previstas no art. 60,§4º: forma federativa de estado, separação dos
poderes e o voto direto, secreto, universal e periódico VII que legitimam a
intervenção federal.

Cabe, portanto, ao STF a definição dos demais princípios não expressos, ou


implícitos à Constituição, mediante a atividade interpretativa. Em razão disso,
quando está analisando um ato administrativo para verificar se o mesmo viola
um preceito fundamental, por ser uma atividade essencialmente interpretativa e
não haver um conceito objetivo acerca do que é um preceito fundamental, o
STF acaba, por vezes, a adentrar na análise do mérito administrativo,
avaliando as escolhas feitas pelo administrador.

A abstratividade da conceituação de preceito fundamental dá margem então


para que o STF avalie questões e escolhas políticas sob a margem do controle
de constitucionalidade, contribuindo para o fenômeno da judicialização da
política, ou seja, para o deslocamento do local de discussões essencialmente
políticas para o Poder Judiciário.

DO FORO ESPECIAL POR PRERROGATIVA DE FUNÇÃO (OU FORO


PRIVILEGIADO) E DO PRINCÍPIO DO JUIZ NATURAL

A Constituição Federal em seu art. 5º, incisos XXXVII e LIII, ao determinar que
não haverá tribunal de exceção e que ninguém será processado ou julgado
senão pela autoridade competente, institui o chamado princípio do juiz natural.
Tal princípio consolida a ideia de que a competência jurisdicional deve ser
estabelecida mediante regras rígidas para garantir a independência e
imparcialidade do julgador.

A isonomia e o Estado Democrático de Direito são fundamentos basilares do


princípio do juiz natural, pois o mesmo tem como objetivo a garantia de que
todos sejam julgados por um juiz competente, livre e imparcial pré-constituído e
garante, ainda, que ninguém possa escolher, de acordo com critérios pessoais,
o juízo pelo qual quer que a sua demanda seja julgada.

Ao mesmo tempo em que a Constituição Federal consagra esse princípio, ela


prevê em seu texto hipóteses de deslocamento da competência originária, em
que o indivíduo, em razão da função que exerce, será julgado por um juízo
diferente dos demais. Tais hipóteses estão expressas nos artigos 29, X; 102, I,
‘b’ e ‘c’; 105, I, ‘a’ e 108, I, ‘a’, e referem-se às infrações penais comuns e aos
crimes de responsabilidade. Veja as tabelas abaixo:

STF STJ
Presidente e vice-presidente da Governadores
República
Deputados federais Desembargadores dos Tribunais de Justiça
Senadores Membros dos Tribunais de Contas
Estaduais
Ministros de Estado Membros dos Tribunais Regionais Federais
Procurador-geral da República Membros dos Tribunais Regionais Eleitorais
Comandantes da Marinha do Exército e Membros dos Tribunais Regionais do
da Aeronáutica Trabalho
Membros do Tribunal de Contas da Membros dos conselhos e Tribunais de
União e dos Tribunais Superiores Contas dos municípios
Chefes de missão diplomática de caráter Membros do Ministério Público da União que
permanente atuem nos tribunais

Tabela 1: Foro por prerrogativa de função

Fonte: elaborada pela autora

TJE TRF
Prefeito Juízes federais da área de sua jurisdição
incluídos os da Justiça Militar e da
Justiça do Trabalho.
Deputados Estaduais Membros do Ministério Público da União.

Outros cargos como Secretários de


Estado, Vice Governado, Procuradores
do Estado, Vereadores, se previstos na
Constituição Estadual.
Tabela 2: Foro por prerrogativa de função

Fonte: Elaborado pela autora

As hipóteses trazidas pela Constituição são taxativas, somente nesses casos


se aplica a prerrogativa do foro especial. Sendo assim, qualquer caso em que
se pretenda aplicar tal prerrogativa que não esteja previsto na Constituição
Federal, ou na Constituição do Estado, viola o princípio do juiz natural, preceito
fundamental insculpido na Constituição Federal.

O foro por prerrogativa de função é, desde sempre, alvo de muitas críticas,


sobre o enfoque de que viola o princípio da igualdade. Entretanto, ele foi criado
pelo Constituinte com a justificativa de proteger o exercício da função ou do
mandato público, a fim de que não sejam alvos de perseguição da Justiça e
tenham um julgamento imparcial livre de influências externas. O foro
privilegiado protege, portanto, a função e não a pessoa que o exercer, logo,
quando o indivíduo não estiver mais no exercício dela, não terá direito à
prerrogativa.

No cenário atual, em face dos diversos processos que apuram alegados casos
de corrupção no Brasil da suposta autoria de políticos brasileiros, a discussão
sobre o foro por prerrogativa de função tem ganhado força. A questão está em
análise pelo STF, no julgamento da Ação Penal 937, onde se discute a
possibilidade de restrição da prerrogativa somente para os casos em que o
crime tiver sido cometido no exercício do mandato e quando houver relação
entre eles (entre o crime e a função exercida).

Vê-se, então, que a questão do foro especial por prerrogativa de função é


muito controvertida, mas que, apesar disso, deve ser vista como uma exceção
à regra e aplicada somente nos casos estritamente previstos em lei

Muito bem, aluno! Pronto para praticar? Vamos ver aqui o passo a passo
para você fazer uma peça de excelência!

Você está diante de um caso em que precisa que seja analisada a


constitucionalidade de um ato praticado pelo Poder Público, o Decreto Y/2019.
Para isso, terá como já viu que ajuizar uma das ações específicas para que seja
feito o controle de constitucionalidade concentrado e abstrato do referido ato.

Para identificar a peça, verifique qual a natureza do ato que está sendo
impugnado: é um ato normativo de efeitos genéricos? E, ainda, o que ele viola:
viola um artigo da constituição, um preceito fundamental ou é o caso de uma
omissão? Assim, você facilmente logo verá qual a peça que deverá redigir.

Feito isso, você deve verificar a estrutura da petição, veja se há uma lei
específica que regula o seu procedimento, ok? Os requisitos por ela impostos
devem ser obrigatoriamente observados. Sua petição deverá observar os seguintes
pontos e formalidades:

 Endereçamento: você deve iniciar por ele, indicando o órgão pelo qual
a ação será julgada. Por exemplo, se for dirigida ao STF ou STJ, você
deve fazer o endereçamento a um Ministro do Tribunal, o qual receberá
a ação por meio da distribuição automática.
 Cabeçalho: onde constarão todos os dados do autor da ação, os
fundamentos legais para a sua propositura, qual ação se refere e o ato
que está sendo impugnado, para que o julgador já identifique do que se
trata a sua petição.
 Tópico da Legitimidade ativa: as ações de controle de
constitucionalidade concentrado possuem um rol de legitimados ativos
limitados, por isso é importante que você elabore um tópico inicial
demonstrando a legitimidade da entidade autora, para sanar qualquer
dúvida e evitar a inépcia da inicial por ilegitimidade de partes.
 Tópico sobre o cabimento da ação: da mesma forma, é importante
também que você demonstre o cabimento da ação escolhida,
fundamentando na lei e explicando porque ela foi o meio processual
escolhido e o mais adequado ao caso concreto.
 Do ato impugnado: ao invés de fazer um tópico narrando os fatos,
como em outra espécie de ação, você deve fazer um tópico
especificando com detalhes o ato que está sendo impugnado e porque
ele é digno de impugnação, trazendo todos os elementos fáticos acerca
dele.
 Da violação constitucional: da mesma forma, o tradicional tópico “Do
Direito” em outras ações, aqui servirá para demonstrar a violação à
constituição, as razões jurídicas pelas quais o ato impugnado merece
ser declarado inconstitucional e extirpado do ordenamento jurídico. Se
tiver provas dessa violação, é neste tópico que elas devem ser
mencionadas.
 Dos pedidos: analise se há a necessidade de pedido de medida
cautelar, se sim, faça um tópico só para este pedido, demonstrando o
preenchimento dos requisitos para a sua concessão. Ao final, refaça o
pedido da cautelar, o pedido principal, e o pedido de notificação de
alguma autoridade, se necessário.
 Da data e da assinatura: a peça deve ser assinada pelo autor, não há a
necessidade de representação por advogado, como vimos. Logo, o ideal
é que seja o Presidente da entidade que a propõe, ou algum membro
com poderes para tanto. A data é sempre um elemento formal
importante, imprescindível em qualquer petição.