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Dionísio Vasco Chongo

A HISTÓRIA DA LOCALIDADE DE 03 DE FEVEREIRO

Maputo, 09.01.2019
Dionísio Vasco Chongo

A HISTÓRIA DA LOCALIDADE DE 03 DE FEVEREIRO

Trabalho individual que conta a história da


localidade de 03 de Fevereiro desde a sua
fundação até os dias actuais. O trabalho
será apresentado a todos membros da
localidade e serve como forma de
valorizar a vida, usos e costumes locais.

Maputo, 09.01.2019
Índice
1. AGRADECIMENTOS ....................................................................................................... 5
2. INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 6
A HISTÓRIA DA LOCALIDADE DE 03 DE FEVEREIRO ................................................... 6
3. OBJECTIVOS .................................................................................................................... 7
4. PROBLEMA ...................................................................................................................... 7
5. METODOLOGIA .................................................................................................................. 8
I – CONTEXTUALIZAÇÃO .................................................................................................... 8
II – REFERENCIAL TEÓRICO ............................................................................................. 10
III – LEITURA E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS ........................................................... 10
1. Origem do nome Lhalalene .............................................................................................. 10
2. Fundação da localidade de03 de Fevereiro....................................................................... 12
3. Primeiros habitantes ......................................................................................................... 13
4. Organização administrativa .............................................................................................. 14
5. Processo de sucessão de poder ......................................................................................... 15
6. Economia e sustento social ............................................................................................... 16
7. Movimento migratório a África do sul ............................................................................. 17
8. Tributos pagos ao Régulo ................................................................................................. 18
9. Cerimónias Tradicionais ................................................................................................... 19
10. Decadência do viver tradicional.................................................................................... 19
11. 03 de Fevereiro depois da independência ..................................................................... 20
12. Delimitação dos bairros ................................................................................................ 21
13. Centro comunal (1979-1987) ........................................................................................ 21
14. Rádio da comunicação local ......................................................................................... 22
15. Centro das camisolas..................................................................................................... 22
16. Crise de 1983 ................................................................................................................ 23
17. 1979 e fundação da escola na aldeia comunal .............................................................. 24
18. Guerra civil e suas consequências................................................................................. 25
19. Fatos históricos da localidade de 03 de Fevereiro ........................................................ 26
20. CONCLUSÃO .............................................................................................................. 28
21. CONSTRANGIMENTOS ............................................................................................ 29
22. RECOMEDAÇÕES ...................................................................................................... 29
23. BIBLIOGRAFIA .......................................................................................................... 30
24. APÊNDICES................................................................................................................. 31
25. ANEXOS ...................................................................................................................... 32
1. AGRADECIMENTOS

Quero endereçar o meu agradecimento a todos que livremente abriram seus corações e
forneceram os dados que precisava, se fui até eles é que sabia que neles conseguiria ter uma
parte dos dados que eu precisava. Eles foram muito honestos e humildes, apesar de terem
idades avançadas.

Um agradecimento muito especial ao idoso Alberto Novene Mirrona, que apesar de não se
encontrar em boas condições de saúde abriu-me portas e conversamos muito, foram três dias
de uma boa conversa e construtiva. Homem, hoje idoso que dedicou uma parte da sua vida a
essa localidade, arriscou a vida pelo bem da localidade, considero ele herói pelos feitos que
ele fez. Não sei se existem palavras suficientes para agradecer a esse senhor, hoje idoso.
Também não posso esquecer me do antigo director da escola primária o senhor Bernardo
Chavo, que humildemente recebeu com muito amor o projecto e deu alguns dados que
construíram esse trabalho. Meu herói incondicional, meu professor, eu sou fruto da educação
que ele me. Agradecer ao idoso Mussane, que humildemente forneceu-me dados sobre a
origem do nome Lhalalene, fui ter com dois idosos para me contarem essa história e todos
disseram que quem conhece a verdadeira origem do nome é ele, eles só iriam completar.

Agradeço também a todos os membros da localidade de 03 de Fevereiro e todos que


interpretaram mal o meu trabalho, aqueles que têm mais histórias da localidade e não
aceitaram fornecer. Em meu nome1 pessoal digo muito obrigado, Khanimambo!

1
Dionísio Vasco Chongo, estudante de Filosofia na Universidade Pedagógica.
2. INTRODUÇÃO

A HISTÓRIA DA LOCALIDADE DE 03 DE FEVEREIRO

Esse constitui mais um trabalho de iniciação científica onde debruçar-me-ei do tema: A


história da localidade de 03 de Fevereiro. O tema é a base para o desenvolvimento da
pesquisa e é a ideia central de todas as ideias que aqui serão desenvolvidas, fazer uma
pesquisa não é algo fácil para o pesquisador, deve ser muito paciente e esperar tudo dos
entrevistados.

Antigamente 03 de Fevereiro chamava-se Lhalalene e a primeira ideia a ser desenvolvida


será de procurar as origens desse nome, ou seja, irei procurar conhecer e fazer outros
conhecerem a origem desse nome, mais adiante irei falar sobre a fundação da localidade de
03 de Fevereiro, e é onde vamos conhecer os motivos que ditaram a fundação da localidade e
ser chamado 03 de Fevereiro. Muitos acham que é 03 de Fevereiro por causa do dia dos
Heróis moçambicanos, mas as pesquisas feitas nos deram resultados diferentes.

Quando se estuda a história de um determinado lugar é importante procurar saber sobre os


primeiros habitantes, porque mesmo dentro do contexto da historial geral ou nacional
encontramos que os Moçambicanos são descendentes dos Bantus mas os primeiros habitantes
foram os Khoi-sans, durante a pesquisa procurei conhecer aqueles que são considerados os
primeiros a ocuparem o espaço que hoje temos a localidade, aqui vai se discutir também a
questão da liderança local e sobre a vida que eles levaram.

A pesquisa envolve dois períodos diferentes, o primeiro período é aquele caracterizado pelo
viver tradicional e o colonialismo português, o segundo vai desde depois da independência
até os dias actuais, as comunidades desses dois períodos tem uma organização muito
diferente, sendo assim procurarei falar de 03 de Fevereiro depois da independência e mais
acontecimentos que marcaram a vida dos moradores da localidade de 03 de Fevereiro, temos
a questão da guerra civil que é um dos acontecimentos.
3. OBJECTIVOS

Objectivo Geral: conhecer a história da localidade de 03 de Fevereiro, desde antes da


independência até depois da independência.

Objectivos específicos:

a) Saber como eles viviam;


b) Descrever a organização social;
c) Compreender as práticas míticas que eram seguidas.

4. PROBLEMA

03 de Fevereiro é uma localidade com uma história muito linda, mas muitos jovens não
conhecem a história da localidade. A maior parte dos pesquisadores não se preocupam em
fazer pesquisas sobre histórias locais, muitos jovens da localidade não se preocupam em
conhecer a história da localidade, saber um pouco sobre os nossos líderes locais. Muitos
acontecimentos da nossa localidade se foram com os nossos antepassados, essa pesquisa vai
permitir as gerações futuras conhecerem a história da localidade.

Quando foi fundada, a localidade era apenas uma aldeia, um conjunto de povoação com
poucos habitantes e seguiam uma organização muito simples, não tinha tudo o que
conseguimos ver hoje em dia. Antes da independência, a organização social que se tinha não
favorecia a todos, o espaço que hoje temos a localidade foi ocupado no tempo colonial e os
membros da aldeia eram obrigados a satisfazer os interesses do opressor. A classe alta da
sociedade é que tinha uma vida segura, eles trabalhavam lado a lado com o regime colonial.
Nessa pesquisa serão discutidos vários assuntos, mas terei como problema a resolver a
seguinte questão:

Por que é que depois da independência a organização social foi alterada e quando é
que foi fundada a localidade de 03 de Fevereiro?
5. METODOLOGIA

Essa pesquisa é de campo ou social e identifica-se com a definição dado por GIL, porque essa
pesquisa se propõe a recolher informações tidas como senso comum e transformá-las em
conhecimento científico, e de acordo com GIL “pesquisa social é um processo que, utilizando
a metodologia científica, permite a obtenção de novos conhecimentos no campo da realidade
social” (GIL, 2008:26).

A pesquisa é descritiva porque estudou-se o estilo de vida levado por um grupo social, as
condições de habitação e dos seus habitantes, o seu desenvolvimento, as mudanças com o
tempo. A pesquisa é participativa porque me identifico com a realidade estudada, faço parte
da sociedade estudada, razão pela qual outras informações forneci-me a mim mesmo.

A pesquisa tem uma natureza qualitativa, porque como pesquisador constituía o instrumento
principal na recolha de dados e porque antes de actuar no campo formulei um questionário
para me orientar, o questionário serviu para guiar a pesquisa e não perder o seu verdadeiro
rumo. Na pesquisa de natureza qualitativa o pesquisador interessa-se mais pelo processo do
que pelos resultados e os dados recolhidos são analisados de uma forma indutiva. E segundo
GIL “ no raciocínio indutivo a generalização não deve ser buscada aprioristicamente, mas
constatada a partir da observação de casos concretos suficientemente confirmados dessa
realidade” (GIL, 2008:10)

I – CONTEXTUALIZAÇÃO

a. Do tema

A escolha do tema é devido a várias histórias que desde criança ouvia acerca da localidade,
agora que cresci achei muito relevante fazer estudo que fosse me informar melhor sobre a
localidade, mas também tinha dentro de mim uma vontade enorme de fazer uma pesquisa
autónoma. Faço parte do tema escolhido, que retrata sobre as minhas origens, encontro-me
dentro dela e não fora dela ou em sua volta e os motivos que me fizeram escolher o tema são
vários.
Um dos vários motivos que fizeram escolher o tema é que antes mesmo de conhecer a
realidade dos outros precisamos primeiro conhecer a nossa, a falta de documentos escritos
que falam da localidade de 03 de Fevereiro contribuiu muito para escolha do tema. O tema
pesquisado vai satisfazer aquela vontade que tinha de fazer uma pesquisa autónoma mas,
também vai permitir aos que não conhecem a história da localidade conhecerem. Estou
convicto que hoje temos a história nacional graça as histórias locais, que foram recolhidas e
sistematizadas, com isso quero afirmar que fazer parte daqueles que construíram e que ainda
fazem pesquisa sobre a história de Moçambique foi um dos motivos e assim escolhi a minha
localidade como campo da pesquisa porque muitos integrantes da localidade não conhecem a
história da localidade.

Trabalhando com esse tema sinto-me a contribuir para o crescimento da pesquisa histórica,
valorizo os usos e costumes locais pois a partir dos mesmos foi possível o mundo distinguir
usos e costumes dos moçambicanos, mas sinto-me mais alegre porque o trabalho servirá de
exemplo para os jovens começarem a valorizar em primeiro lugar o que é deles, apoiarem em
primeiro lugar a cultura nacional.

b. Do local

03 de Fevereiro é uma localidade que pertence ao Posto Administrativo de 03 de Fevereiro,


Distrito da Manhiça, província de Maputo. A nível do distrito predomina duas estações, a
quente e de elevada pluviosidade e a fresca e seca. A principal actividade económica é a
agricultura, a localidade está organizada em bairros e cada bairro com um secretário e líderes
comunitários. Na localidade passa a estrada nacional número 1.

A localidade tem dois nomes, um adoptado pelos membros da localidade muito antes da
independência e o nome é Lhalalene e o segundo é fruto da independência nacional
concretamente quando a Frelimo começou com a mobilização dos membros e as calamidades
naturais. Uma localidade muito calma, desenvolve na medida em que o país desenvolve e
actualmente com menos índices de criminalidade. Tem um Posto Policial, Posto de Saúde e
Escolas.
II – REFERENCIAL TEÓRICO

A pesquisa é um estudo sobre uma história local, portanto achei importante definir o que é
história e para depois procurar o que é história local e sua importância. O conceito história
envolve vários conceitos que merecem análise, um dos conceitos é a palavra tempo, não se
pode discutir história sem envolver o tempo e muitos historiadores defendem que história é
definida de acordo com o tempo, local e a vida do povo a ser estudado. Segundo BLOCH “
história é a ciência que estuda os homens no tempo” (BLOCH, 2001:55).

A história local é muito importante e ajuda a construir a história de um país. Conhecendo as


histórias locais tornar-se-ia muito fácil realizar um estudo sobre um país. Segundo SILVA “a
história local tem aberto novos caminhos, novas vias e novos temas de pesquisa que têm feito
avançar e progredir o conhecimento da história” (SILVA, 384).

Alguns autores afirmam que o estudo de história geral de um país desperta uma vontade
enorme aos estudantes de fazerem um estudo sobre a história locais e também quando os
estudantes conhecem a história local compreendem com muita facilidade a história nacional,
isso acontece porque alguns factos da história nacional encontram-se nas histórias das
localidades. Segundo BARROS, “o ensino de história local apresenta-se como um ponto de
partida para a aprendizagem histórica, pela possibilidade de trabalhar com a realidade mais
próxima das relações sociais que se estabelecem entre educador, educando a sociedade e o
meio em que vivem” (BARROS, 3).

III – LEITURA E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS

1. Origem do nome Lhalalene

03 de Fevereiro é o nome usado actualmente para chamar a localidade, fruto da


independência ou das calamidades naturais dos anos 1976 -77, porque desde o tempo da
dominação colonial, a região de 03 de Fevereiro era chamada “Lhalalene”. Lhalalene deriva
do changana Kulhalela e significa assistir, ver, olhar, admirar, espanto. E as últimas duas
palavras segundo os filósofos gregos, nomeadamente Platão e Aristóteles é que originaram a
filosofia e com isso podemos dizer que ali nasceu uma filosofia através do espanto que as
pessoas tiveram ao ver aqueles peixes, eles conheciam peixes mas aqueles que ali viram lhes
fez nascer várias perguntas que nem conseguiram dar as respectivas respostas, o que apenas
conseguiram foi problematizar como dizem os filósofos: importa-nos mais as questões do que
as respostas. Mas com as calamidades que assolaram o país nos anos 1976 e 1977 esse nome
foi trocado com o actual “03 de Fevereiro”.

De salientar que o nome Lhalalene é ainda usado nos dias actuais e com grande valor para os
que conhecem a história da sua origem, apesar de 03 de Fevereiro ser o nome com grande
destaque para camada jovem o Lhalalene nunca será esquecido. O nome Lhalalene tem uma
origem muito dramática, como se sabe os nossos antepassados antes da colonização e de
terem o domínio da escrita, guardavam os conhecimentos na mente e eram transmitidos de
geração em geração. Mas existia uma outra forma muito fácil que usavam para registar-se
acontecimentos importantes. Essa forma era de dar nomes, isto é, alguns nomes africanos
falam e significam algo nas nossas vidas, muitas vezes não temos conhecimentos mas em
alguns nomes conhecemos os significados.

Antigamente, se numa aldeia ou família tivesse uma preocupação ou acontecesse algo muito
raro de acontecer, para se registar o facto davam nome a uma pessoa ou local, esse nome lhes
fazia lembrar o acontecimento e assim era transmitido aos mais novos para não ser esquecido
e ser conhecido por todos. Essa forma de registar acontecimentos é mais usado nas regiões
que não têm domínio da escrita e hoje em dia ainda acontece o mesmo nas regiões que o
domínio da escrita é muito pouco.

O nome Lhalalene originou-se na mesma região de 03 de Fevereiro concretamente no local


que separa a zona alta e baixa da localidade, nesse local tinha uma fonte de água, as pessoas
buscavam ali água para beber, lavar, cozinhar e essa fonte ainda existe nos dias de hoje, mas
já não se busca água. Com o andar do tempo, as pessoas descobriram que no mesmo local
tem um lugar que sobrevivem peixes, esses peixes eram pequenos, tinham todos o mesmo
tamanho, mesmo tipo do nadar e não cresciam. As primeiras pessoas que descobriram a
existência de peixes no local, gritavam e chamavam os outros para presenciar aquele
momento por perto, eles gritavam chamando outros em língua changana e diziam: Lhalelane,
vuyani kutalhalela leswi (assistam, aproximem para ver isto), e assim as pessoas
aproximavam e viam os peixes, todos admiraram e espantaram-se, portanto ao chegar na
aldeia aqueles que já viram os peixes chamavam outros para dirigirem-se ao local para ver os
peixes e todos começaram a chamar aquele local com o nome Lhalalene por causa desse
acontecimento. As pessoas viram aqueles peixes como algo que nunca tinham visto antes,
aquilo distanciou eles do seu mundo costumeiro através do espanto que tiveram.

O acontecimento na época foi considerado divino e que merecia muito respeito por pessoas
locais ou mesmo pessoas de fora, fizeram esse registo que viveria em mentes de todos e
ninguém esqueceu. Deram o nome Lhalalene como forma de registar o acontecimento, isso
era para que as gerações futuras possam ter o conhecimento da história que originou o nome.

Hoje em dia no local que nasceu o nome Lhalalene passa a estrada nacional número 1 e
temos ponte chamada Chulavecane, e segundo o senhor Mussane ”no tempo da construção da
ponte houve necessidade de se realizar uma cerimónia tradicional porque o trabalho não
decorria como queriam, mas depois da cerimónia tudo correu bem isso só aconteceu no local
que originou o nome Lhalalene”.

Essa é a história que originou o nome Lhalalene e poucas pessoas da localidade têm
conhecimento da história e várias versões foram feitas para explicar a origem do nome
Lhalalene. Importa salientar que após descobrir-se a existência de peixes no local as pessoas
começaram a ter medo de passar no local a noite.

2. Fundação da localidade de03 de Fevereiro

03 de Fevereiro é uma data histórica em Moçambique e para todos os Moçambicanos, é


conhecido e celebrado dentro e fora do país. Em Moçambique quando chega 03 de Fevereiro
de cada ano celebra-se o dia dos Heróis Moçambicanos e recorda-se o dia em que o primeiro
presidente da Frelimo morreu – Eduardo Chivambo Mondlane (1920-1969). Mas em algumas
regiões do país celebra-se também a época de canheira (sumo de canho) e na situação
concreta da localidade de 03 de Fevereiro como o nome diz celebra-se as duas festas acima
mencionados e também o dia em que a localidade foi fundada.

A localidade de 03 de Fevereiro foi fundada depois da independência, no dia 03 de Fevereiro


de 1976, nesse dia as pessoas que residiam na zona baixa foram obrigados a abandonar as
suas residências devido as cheias que assolaram o país. Esse ano é que marca a fundação da
localidade mas começou a ser muito habitado em 1977 que no mesmo mês as cheias voltaram
assolar a mesma zona e com grande pressão comparando com as cheias do ano 1976, as
pessoas com as segundas cheias abandonaram por definitivo a zona baixa e fixaram-se na
zona segura.

Com as cheias houve grandes perdas, nas machambas perdeu-se todas culturas que tinham
plantado, as casas foram destruídas com as águas das cheias e gados também morreram. O
governo prestou apoio as famílias afectadas com terrenos, materiais de construção,
alimentação e barcos para tirar as pessoas e seus bens das zonas inseguras. O apoio prestado
pelo governo minimizou e tornou a vida daquelas pessoas razoáveis, não conseguiu satisfazer
a todos porque o país acabava de alcançar a independência, ainda não recebiam grande apoio
dos países de fora e socialistas e também porque no mesmo ano de 1977 no norte do país já
tinha começado a guerra civil.

As cheias facilitaram o processo da retirada das pessoas das zonas baixas para zonas seguras.
Em 1974, antes mesmo de ser Presidente da República Joaquim Alberto Chissano passou da
aldeia para nomear grupos dinamizadores e avisar as pessoas para fixarem-se nas zonas
seguras. Essa transferência das pessoas visava a criação das novas aldeias e eram designadas
aldeias comunais, era para facilitar a distribuição dos bens de ordem pública, também a
Frelimo tinha começado com a ideia da unidade nacional. Todos esses acontecimentos é que
ditaram a mudança do nome Lhalalene para 03 de Fevereiro, também na localidade já viviam
pessoas de diferentes aldeias e formaram uma aldeia.

3. Primeiros habitantes

O espaço onde desde 1977 temos a localidade de 03 de Fevereiro antes da independência,


viviam pessoas e esses seguiam usos e costumes do colonialismo português, adoravam mais
ao culto dos antepassados. Segundo as pesquisas feitas, as primeiras pessoas a fixarem suas
residências e formarem aldeia pertenciam ao Clã Lhanimani Massingue, provenientes da
região da Massinga o primeiro local ocupado por pessoas do Lhanimani foi designado
Kalhanimani.

As pessoas do Clã Lhanimani fixaram-se no local no tempo colonial, razão pela qual o
Régulo que era chefe máximo do clã seguia orientações dos portugueses colonizadores.
Lhanimani é filho mais velho de Makalani, as pessoas desse clã dividiam-se em 4 pequenos
clãs e todos com seu poder central no território do Lhanimani. Primeiro temos um grupo
chefiado pelo próprio Lhanimani, o segundo chefiado por Djovissani Massingue, um dos
irmãos do Lhanimani, o terceiro era chefiado por N’Waphurreta Massingue e o último era
chefiado por Xikwembo Melembe.

4. Organização administrativa

Regulo

Chefes
das
Terras

N'kosazani

N'tindonta

Populacao

A pirâmide acima mostra como era organizada a população no tempo colonial nas aldeias. O
Régulo era o chefe máximo, ele mandava em todas pessoas da sua aldeia e ele cumpria com
as obrigações do colonialismo português, proprietário de grandes terras férteis e grande
criador de gado, fornecia mão-de-obra barata aos Portugueses.

O Régulo dava a cada irmão um espaço e pessoas para chefiar. Os irmãos do Régulo eram
chefes das terras, mas isso não fazia deles autónomos, ainda continuavam a depender do
poder do Régulo e o Régulo dos Portugueses. O mensageiro do Régulo chamava-se
Ndzundzani, tinha o papel de receber cartas e entregava ao Régulo, cobrava o tributo nas
famílias e nos mineiros quando regressavam da África do Sul. Na altura o único meio de
comunicação era redigir cartas, esse processo no início era mais usado pelos chefes e mais
tarde aqueles que trabalhavam nas minas de África do Sul passaram a usar esse meio de
comunicação com as suas famílias.
O Régulo e Chefes das terras tinham que ter um certo nível escolar, os portugueses é que
ensinavam os Régulos e Chefes das terras até saberem escrever e ler. Davam a eles educação
escolar para melhor servirem aos seus interesses, os portugueses escreviam cartas para o
Régulo e Chefes da terras e vice-versa, o Régulo escrevia cartas para os Portugueses e Chefes
das terras e vice-versa, o mesmo acontecia com os Chefes das terras e para escrever usava-se
tintas e asas de galinhas e mais tarde passaram a usar lápis, escreviam no papel, foi assim que
os portugueses dominaram os negros e tornaram alguns como assimilados.

5. Processo de sucessão de poder

A Sucessão do poder era feita após a morte do Régulo actual, fora disso não saía do poder e
após a morte o poder passava só e somente para o seu filho mais velho, ele ocupava todas as
actividades exercidas pelo pai. Mas antes do filho subir no poder, reunia-se todas as pessoas
da família real, chefes das terras e chefes das aldeias para realização de uma cerimónia
porque morreu o Régulo e depois da cerimónia seguia o processo de sucessão do poder e o
novo Régulo apresentava-se a população.

Com a morte do Régulo Lhanimani subiu ao poder o seu filho mais velho chamado Xilhalha
Massingue, reinou e seguiu com o tipo de vida levado pelo pai, obedecia aos colonizadores,
de salientar que Xilhalha não ficou muito tempo no poder comparando-o com o pai, razão
pela qual com a morte dele o poder saiu da família Massingue para a família Timane. Com a
morte de Xilhalha o poder do Régulo passou para os Timanes e o primeiro Régulo da família
Timane era amigo de Xilhalha e pai de Lhonipane que mais tarde veio a ser Régulo.

Existem dois motivos que levaram os Massingues a se afastarem do reinado e deixarem com
os Timanes, e são:

a) O primeiro motivo foi o facto de Xihalha não ter permanecido por muito tempo no
poder e o filho mais velho dele recusou-se a ser Régulo porque achou a morte do pai
como algo criado por pessoas, tinha medo de morrer cedo. Portanto, o filho mais
velho do Xilhalha reuniu todos os chefes e familiares e disse a eles que não iria
ocupar o poder, viu o amigo do pai como pessoa ideal para ocupar o poder de ser
Régulo que era da família Timane.
b) O segundo é que outros membros da família Massingue eram mineiros na África do
Sul e também não podiam deixar o contrato assinado.

Esses dois motivos é que ditaram a transferência do poder segundo as pesquisas feitas.

Os membros da família Timane sempre tiveram uma vida um pouco diferente com outros
membros da aldeia, eles eram mais próximos com os Massingues. Os da família Timane até
os dias de hoje têm o poder do Régulo mas não realizam cerimónias tradicionais sem a
presença dos Massingues, eles recebem as missões de realizar cerimónias e depois chamam
os Massingues para a realização das mesmas. O último Régulo e último a sair do poder não
por questões de morte foi o senhor Xiwayani Timane, filho do Paulino Timane, esse também
que foi um dos régulos. Ele foi rompido quando os colonizadores foram expulsos do território
nacional e a Frelimo é que organizava as comunidades.

6. Economia e sustento social

A economia e o sustento social nessa pesquisa constitui todo o trabalho que era realizado
pelas pessoas locais até conseguirem algo para alimentarem-se, conseguir dinheiro para
comprar vestuários, e materiais de construção e de trabalho. Como é até os dias de hoje, a
agricultura era a base de sustento das famílias e depois seguia a pastorícia, a agricultura era
praticada por pessoas de várias faixas etárias, desde adolescentes até alguns idosos.

Na altura a prática da agricultura era muito arcaica, os instrumentos usados eram de fabrico
caseiro, mas hoje em dia a prática da agricultura é muito desenvolvida. No tempo que aqui se
refere, a agricultura praticada ainda não conhecia aquilo que chamamos agricultura
mecanizada, esse processo talvez só beneficiava os portugueses, mas as pessoas produziam
muito até ficar o excedente da produção. As culturas mais produzidas eram: milho, feijão,
amendoim, chicombe, trigo e vegetais. Chicombe é uma cultura que com a sua colheita, fazia-
se um tipo de bebida tradicional designado Chintó, era muito usada nas cerimónias
tradicionais e também para o consumo normal como qualquer outra bebida, chicombe fazia
também xima.

A cultura de trigo era mais para a comercialização, a empresa que comprava o trigo era a
JEAC (Junta de Exportação de Algodão Colonial), e tinha como grande propósito introduzir o
trabalho de culturas obrigatórias, nomeadamente do algodão e tabaco. Segundo o senhor
Mirrona “Os Portugueses é que eram os compradores oficiais do trigo e mais tarde
forneciam-nos sementes do algodão para ser plantado. O plantio do algodão não deu certo
porque fomos alertados de que a cultura do algodão era muito difícil de cuidar, dava muito
trabalho, o colono até matava pessoas por causa do algodão, portanto passamos a cozer as
sementes a noite e deixávamos uma quantidade muito pouca de sementes não cozidos, e
assim escapamos da cultura de algodão porque as sementes não germinavam e eles pensavam
que a terra não era própria para aquela cultura.”

A JEAC, era uma empresa portuguesa que comprava e controlava o processo de plantação do
algodão e exportava para Portugal. Na altura o plantio do algodão era obrigatório, a JEAC
fornecia aos camponeses sementes, adubos, sacos para colheita e eles vinham avaliar e
comprar, a empresa foi fundada em 1938, ano em que Portugal tinha muitas indústrias têxteis
mas tinha falta de matéria-prima e assim nas colónias portuguesas foi introduzido o trabalho
das culturas obrigatórias do algodão para sustentar as indústrias, ao lado do algodão temos o
tabaco e chá, essas culturas também eram obrigatórias.

A criação do gado bovino e caprino era uma das actividades para sustento familiar, na altura
esses animais não eram muito comercializados como nos dias actuais, para ganhar salários
trabalhavam nas plantações dos portugueses. De salientar que a produção e comercialização
do trigo foi nos anos 1951-54, cerca de 4 anos.

7. Movimento migratório a África do sul

O trabalho migratório nas minas Sul Africanas era muito abraçado por jovens e adultos dessa
localidade e com mais frequência do que dias actuais. Hoje em dia é muito difícil um
nacional conseguir trabalho nas minas, mas antigamente as pessoas saíam de casa já com
contratos assinados. Os principais intervenientes no recrutamento eram comerciantes Ingleses
de Durban e Natal, com as chefeaturas locais, em 1897 foi criado um órgão da câmara das
minas que obteve o monopólio de recrutamento de mão-de-obra através de um acordo secreto
com o governo português em 1901 que só veio a ser confirmado em 1909, essa data marca a
primeira convenção entre Moçambique e Transvaal. O órgão que foi criado e que tinha
missão de recrutar trabalhadores chama-se Witwatersrand Native Labour Association
(WENELA).
As pessoas para serem contratadas dirigiam-se onde tinha sido instalado esse órgão e para
homens da localidade de 03 de Fevereiro a agência mais próxima era de Xinavane e Manhiça.
A WENELA, era fixada em todas povoações que tem estação de trem porque o comboio era
o único meio de transporte para chegar-se a África do Sul. As pessoas dirigiam-se a
WENELA e lá eram contratadas, saía-se de casa numa quinta-feira e seguia-se com a viagem
rumo a Ressano Garcia, aqui encontravam-se com médicos para consultar o estado de saúde
de cada homem contratado. De Ressano Garcia viajavam directamente para África do Sul
onde eram repartidos por minas.

8. Tributos pagos ao Régulo

Em uma parte das regiões no tempo em que o poder social pertencia a uma e única família, os
outros membros da sociedade no seu vencimento ou na sua colheita deviam tirar algo para
oferecer ao Régulo e nesse tempo do Lhanimani e seus sucessores essa prática existia.

Todos trabalhadores das minas sul-africanas, na sua volta tinham direito de tirar um valor no
seu vencimento deferido de cada contrato e ofereciam ao Régulo, a esse tributo deu-se o
nome de M’pondo ya Hosi, que traduzido em português diz-se moeda do Régulo. Por cada
mineiro o Régulo mandava o mensageiro ir atrás desse tributo, não esperava o mineiro ir dar
por vontade própria e durante esse tempo já se tinha um valor estipulado que cada mineiro
devia dar ao Régulo e esse valor era mesmo o M’pondo hoje em dia cem. Todo o mineiro que
recusava dar esse tributo era submetido ao trabalho forçado ou o famoso xibalo, trabalhava-se
se seis meses sem receber.

Os agricultores tinham que prestar serviços em casa dos chefes e nas machambas dos mesmos
e no tempo de colheita cada membro da aldeia devia tirar uma parte da sua colheita e oferecer
ao chefe, e os primeiros produtos deviam ser cozidos e consumidos em casa do Régulo ou
Chefe das Terras. E se for época de sumo de canho, cada família devia levar sumo para casa
do chefe.

Quando uma família mata gado devia tirar uma parte para casa do Régulo ou Chefe das
Terras, a esse tributo deu-se o nome de rilhaguthi, aquele que não dava esse tributo era
submetido ao xibalo pagar por dinheiro. Os chefes das terras obrigavam as famílias a
cortarem estacas, caniços e a construírem casas para os colonizadores porque nessa altura as
casas ainda eram de caniço.

Aqui mostra-se os tributos que as pessoas deviam pagar aos chefes das terras e quem não
oferecia esses tributos era submetido ao trabalho forçado.

9. Cerimónias Tradicionais

Adorava-se o culto dos antepassados, essa é a religião que se faz sentir quase em todas
comunidades africanas, tinha uma cerimónia realizada por Régulos e Chefes das Terras, a
cerimónia designava-se n’mamba ou Kupalha. Cerimónia servia para falar com os
antepassados, pedia-se chuva e os antepassados também exigiam o que queriam, construía-se
casas para os antepassados. Uma outra cerimónia que era celebrado todos anos era de
colheita, coincidia com a época do canho e celebrava-se em Fevereiro de cada ano, essas
cerimónia ainda é seguida nos dias actuais.

Após morte do Régulo ou chefe das terras realizava-se também uma cerimónia para proceder
o processo de sucessão de poder para novo Régulo ou Chefe das Terras. Procurava-se um
curandeiro e reunia-se todas pessoas da família do Régulo ou Chefe e falavam com os
antepassados, eles diziam o que queriam e o que era necessário para o bem do povo. As
campas e os espíritos dos chefes eram os mais respeitados.

Todas as cerimónias eram realizadas primeiro em baixo de uma árvore de canhoeiro, essa
árvore é tida como divino em quase todas regiões do Sul de Moçambique e não só. Além das
cerimónias têm se também danças tradicionais, essas danças animavam as cerimónias e festas
comunitárias. As danças mais abraçadas eram: Xipenda, Xigubo, Mutxogolo e Makwai.

10. Decadência do viver tradicional

Quando em 1974 os colonizadores começaram a abandonar o território nacional com muita


frequência e a Frelimo já mandava em quase todo o país, rompeu-se com o viver tradicional,
os Régulos perderam aquele poder ditatorial, os povos ficaram aliviados e começaram uma
nova vida, livre do trabalho forçado e descriminação racial. Todos aqueles que eram Chefes
das Terras, responsáveis pela realização de cerimónias tradicionais, com a chegada da
Frelimo foram substituídos e uma nova organização social foi construída. Rompeu-se com o
curandeirismo e feitiçaria.

A liderança da Frelimo é que ditou o fim do viver tradicional e todos os chefes das terras
eram tidos como indivíduos normais. O viver tradicional rompeu-se no início do ano 1973 e
1974, quando começaram as negociações da independência nacional e os chefes das terras
não ocuparam cargos de chefia no tempo da Frelimo porque eles eram contra a luta de
libertação nacional e trabalhavam para o regime colonial. Com a Frelimo as pessoas ficaram
felizes, viviam uma vida de paz e começou a construir-se o Moçambique como país e não
como província ultramarina como diziam os colonizadores.

11. 03 de Fevereiro depois da independência

03 de Fevereiro a quando da sua fundação chamava-se aldeia comunal de 03 de Fevereiro.


Aldeia comunal porque conviviam pessoas que vinham de diferentes aldeias e que foram
fixados no mesmo local, formando uma e única aldeia, pessoas que nunca tinham partilhado
experiências começaram a partilhar, houve um intercâmbio cultural e também são aldeias
comunais porque tudo o que se tinha era comum, era de todos. Na província de Maputo várias
aldeias comunais foram criadas, e segundo ARAÚJO “as aldeias comunais desta província
têm duas origens: as calamidades naturais e a mobilização. As mais antigas são de 03 de
Fevereiro (…), Ilha Josina e Nwamatibjana, no distrito da Manhiça” (ARAÚJO, 1988: 255 e
257).

O governo juntamente com o partido Frelimo unira as aldeias no mesmo lugar com o
propósito de ajudar todos por igual. O governo queria fornecer redes de água, centro de
saúde, escola, energia e mais bens de ordem pública com muita facilidade. Moçambique
acabava de alcançar a independência, portanto houve esse projecto de concentrar as pessoas
na mesma aldeia, segura e habitável, isto é, as aldeias dispersas foram reunidas e formaram
aldeias comunais porque não se tinha investimento suficiente para ajudar em todas aldeias e
também porque as outras aldeias eram vulneráveis a calamidades naturais.

Com as aldeias comunais queriam construir as cidades rurais, isto é, um sistema de uma
política socialista, onde todas as famílias tinham direito do mesmo espaço para fixar a
residência e para produção agrícola, todas famílias tinham que ter o mesmo tipo de casa
(casas iguais), se o vizinho tem energia o outro vizinho tinha que ter. A ideia de construir-se
casas iguais não surtiu efeitos porque não se tinha capital suficiente e também decorria na
mesma altura a guerra civil.

Importa salientar que os Chefes das Terras não apoiavam muito a ideia da independência,
eles já tinham ideia de que com a independência já não ocupariam grandes cargos pois eles
trabalhavam para o regime colonial.

Com a independência construiu-se uma nova aldeia e uma nova organização. O primeiro
secretário da localidade foi o senhor Palvati Maiacane, trabalhava com o senhor Ernesto
Machaieie, que com a morte do Palvati em 1986 assumiu o cargo do primeiro secretário.

12. Delimitação dos bairros

Quando em 1977 as pessoas abandonaram definitivamente a zona baixa e ocuparam a zona


segura, começou o processo de delimitação dos bairros, as famílias foram dadas terrenos para
construção de casas, o que nos diz que a localidade de 03 de Fevereiro desde a sua fundação
foi organizada em bairros. No início da delimitação dos bairros, cada bairro tinha que ter no
mínimo 250 casas, ou seja, 250 casas formavam um bairro e cada bairro tinha uma estrutura,
na altura chamavam-se grupos dinamizadores. Em cada conjunto de grupos dinamizadores de
cada bairro tinha-se o secretário do bairro, responsáveis pela agricultura, pela mobilização da
população, pela construção e do trabalho ideológico.

13. Centro comunal (1979-1987)

No centro comunal trabalhava o primeiro secretário da aldeia comunal e seus subordinados.


Fazia-se cooperativas para ajudar as pessoas locais, tinha-se cooperativas de plantações de
produtos alimentares, de barracas e mais. O primeiro secretário tinha a função de dar
orientações aos secretários dos bairros e grupos dinamizadores, e fazia com que se realizasse
tudo o que era planificado.

No centro comunal tratava-se de questões locais, davam orientações aos camponeses, para
obter terras para produzir devia se deslocar até ao centro. O centro trabalha ao serviço da
população. Cada bairro tinha o seu centro, mas o centro comunal era tido como Sede e grande
centro em relação aos outros centros existentes. A estrutura máxima da aldeia trabalhava no
centro, as visitas que a aldeia recebeu após distribuir-se terrenos chegou no centro e depois
para a comunidade. No ano 1982 o centro recebeu o apoio do Governo Tanzaniano, com
máquinas de costura e uma moageira.

O centro trabalhou com aldeia por um período muito curto porque quando a guerra civil
começou a se fazer sentir nessa aldeia as pessoas fugiram para zonas seguras, onde não iam
sofrer ataques.

14. Rádio da comunicação local

Bem próximo do centro comunal, tinha-se uma rádio de comunicação social que transmitia as
notícias locais. Essa rádio de comunicação local servia também para invocar aos secretários
dos bairros sempre que fossem precisados no centro comunal ou para cumprir com outras
tarefas na aldeia ou para dar informações de encontros sociais.

As antenas da rádio eram feitas por postes ou estacas de árvore de eucalipto, procurava-se as
partes mais altas da árvore para fazer as Atenas e no topo montava-se microfones. Montava-
se microfones porque as pessoas não tinham rádios em casa e já que no tempo tinha 4 bairros
foram montados também 4 microfones, um para cada bairro.

A primeira pessoa a ser comunicador da rádio comunal foi o senhor Lázaro Macuacua, mas
com o tempo abandonou a rádio e foi trabalhar na África do Sul, com a saída do senhor
Lázaro na rádio ficou como comunicador local o senhor Macava Bechane. A rádio foi
interrompida em 1984 por causa da guerra civil e quando voltou-se da guerra já não foi
reconstruída.

15. Centro das camisolas

O centro das camisolas foi um das várias cooperativas criadas no cento comunal, ficou mais
famoso pelo trabalho que ali era feito. Três homens locais, nomeadamente Palvati Maiacane
que era o primeiro secretário, Eduardo Tovela e José Sitoe, associaram dinheiro e fizeram a
cooperativa, designada centro das camisolas. Compraram máquinas de costura, tecidos, linhas
e outros materiais necessários para construir-se uma alfaiataria. No centro das camisolas
fazia-se camisolas, luvas e chapéus, no início o centro foi construído por caniço e mais tarde,
com apoio do governo foi construída uma casa de alvenaria como centro, as camisolas não
eram só comercializados na aldeia de 03 de Fevereiro mas também nas outras aldeias.

Os donos do centro, empregavam suas famílias e pessoas locais. O centro garantia uma vida
razoável para os donos mas também para pessoas que eram empregadas. No ano 1982 o
centro das camisolas beneficiou-se de um apoio do Governo Tanzaniano, o centro recebeu
máquinas de costura, tecidos, linhas e camisolas que vieram só para vender.

Com o agravamento da guerra civil na aldeia, o centro foi abandonado, refugiaram-se para
Xinavane, durante a guerra o centro foi destruído, dois dos três proprietários perderam a vida,
os senhores Palvati e José. Com fim da guerra o senhor Eduardo Tovela ficou com o centro
como sua casa, não conseguiu reconstruir o centro porque as destruições eram graves.

16. Crise de 1983

Em 1974, depois do acordo de Lusaka entre a Frelimo e o governo Português, maior parte dos
empresários que investiam em Moçambique abandonaram o território nacional e foram fixar-
se na África do sul e outros voltaram para países de origem, houve falta de quadros
(professores, enfermeiros, operadores de máquinas nas indústrias, etc.) e parou-se com a
importação de produtos.

A crise começou no ano 1981 e ganhou se ponto mais alto em 1983. Para ganhar algo para
comer, para fazer compras devia-se fazer bichas nas barracas, a chuva não caía, e outras
pessoas tinham dinheiro mas tinha muita falta de produtos nas barracas, não se tinha onde
comprar. Os indianos que eram proprietários de grandes armazéns de produtos alimentares
tinham fechado e segundo o senhor Mirrona “os indianos fecharam os armazéns porque
tinham sido comprados pelos portugueses que ainda queriam voltar a colonizar
Moçambique”.

Para erradicar a pobreza na aldeia, as pessoas iam comprar cana-de-açúcar na açucareira da


Maragra, vendia-se a cana e as pessoas ganhavam algo para comer.
17. 1979 e fundação da escola na aldeia comunal

1979 é um ano da sorte e de grandes acontecimentos para a localidade de 03 Fevereiro, é um


ano que levou até as pessoas novas coisas e boas, a vida mudou e ficou muito razoável para
os membros da aldeia. Assim que 1979 foi um ano de vitórias para as pessoas da aldeia, 1987
foi um ano de muito choro, muito sofrimento e muita maldade. A aldeia perdeu quase tudo
que conquistou do governo no ano 1979.

Em 1979 foi transferida a escola da zona baixa para a aldeia comunal de 03 de Fevereiro, as
primeiras salas eram de caniço nos lados e na cobertura, não tinham portas. No início a escola
trabalhou com quatro (4) professores e em 1980 a Escola passou a trabalhar com mais dois
(2) professores, já eram seis (6) no total, as classes iam desde a pré-primária até quarta classe,
por turma tinha no mínimo 30 alunos e no máximo 45. A população local ajudava muito aos
professores, construíam casas para professores.

Em 1984 a população juntou forças e iniciaram com a construção de três (3) salas de aulas, só
que estas não foram concluídas porque no mesmo ano a Guerra Civil entrou pela primeira vez
na aldeia, escola foi destruída, casas foram queimadas e várias pessoas foram mortas. Em
1986 introduziu-se a quinta classe e as salas iniciadas pelos membros da aldeia foram
destruídas nesse ano, a guerra avançou e em 1987 os professores viram-se obrigados a parar
as aulas, a escola foi fechada e refugiaram-se nas zonas seguras.

Com o fim da guerra em 1992, a escola só veio a ser reconstruída em 1994, numa primeira
fase as aulas decorreram nas instalações que antes da guerra era centro de comunicação local
e em mais duas casas. Em 1995 uma organização não-governamental, construiu seis (6) salas
de aulas, casas para professores e casas de banhos para toda escola, as obras de construção
terminaram em 1996 e no mesmo ano os alunos usaram a escola nova. Segundo o antigo
director da escola, o senhor Bernardo Chavo “só foi a partir de 1996 que alunos e professores
tiveram pela primeira vez um local digno para trabalhar desde 1979”.

Em 1998 a escola beneficiou de mais quatro (4) salas de aula e residências para professores.
Esse segundo foi prestado pela Act!Onaid e anos depois introduziu-se a sexta e sétima classe
e foi assim que a escola cresceu na localidade de 03 de Fevereiro. É um privilégio ter
estudado na Escola Primária Completa de 03 de Fevereiro – EPC de 03 de Fevereiro. E
agradeço a todos educadores que lutam dia e noite para educar as crianças e jovens da minha
localidade, está de parabéns toda equipe da escola.

18. Guerra civil e suas consequências

Enquanto nos anos 1976 e 1977 as pessoas da localidade de 03 de Fevereiro lutavam para
conseguir material para reconstruir as casas e sair das zonas inseguras para zonas seguras, no
norte do País as pessoas já corriam a guerra, que foi levado a cabo pela RENAMO e a
FRELIMO, os dois grandes partidos da República de Moçambique. Durante o conflito
armado registou-se várias perdas de vida, as pessoas ficaram deficientes devido a guerra e só
veio a terminar no ano 1992.

Os soldados da Renamo chegaram na aldeia de 03 de Fevereiro pela primeira vez no dia 08


de Setembro de 1984 e fixaram-se numa zona designado Kamurrona. Mataram seis (6)
milicianos, nove (9) pessoas da aldeia foram feridas e trinta e duas casas (32) foram
queimadas. Em 1985 os soldados entravam nas aldeias mas não matavam, só voltaram atacar
e matar no ano 1986, no mesmo ano foi morto o primeiro secretário da aldeia de 03 de
Fevereiro.

No dia 29 de Novembro de 1987, na localidade de 03 de Fevereiro aconteceu a maior


desgraça de todas que a guerra civil provocou na localidade. Nessa data os soldados da
Renamo abateram a coluna de soldados da Frelimo, pessoas civis e soldados da Frelimo
foram mortos, carros e bens foram queimados, as pessoas da aldeia ficaram chocados, o medo
entrou demais, já não sabiam o que fazer mas sabiam que continuar na aldeia não era boa
ideia. Abandonaram as casas, foram fixar as suas residências em Xinavane.

As pessoas permaneceram em Xinavane até 1993, um ano depois da guerra civil. Os soldados
não deixaram de seguir e matar as pessoas. Em 1988 entraram em Xinavane e mataram
pessoas, casas foram queimadas e vários bens foram perdidos. No mesmo ano, foi montado
uma vedação que impedia os soldados da Renamo entrarem e matar as pessoas, mas com o
tempo os soldados da Renamo furaram a vedação e faziam a pessoas sofrerem, 1989 isso fez
os Secretários irem pedir apoio na Escola de Formação Básica Militar de Munguine -
Manhiça. Os chefes locais beneficiavam de uma formação militar para defesa pessoal e de
pessoas, as minas que receberam na escola militar, foram minados nas entradas que os
soldados da Renamo usavam, no dia que eles entraram maior parte deles morreram.

As pessoas de 03 Fevereiro, residentes em Xinavane, recebiam apoio alimentar, de roupas


porque lá não tinham mamchambas e nem trabalhavam. As organizações não-governamentais
ofereciam alimentos para sustento, mesmo quando voltaram para 03 de Fevereiro em 1993
continuaram a ter esse apoio.

19. Fatos históricos da localidade de 03 de Fevereiro

O quadro que se segue, resume os acontecimentos históricos mais importantes na localidade


de 03 de Fevereiro.

Data Acontecimento
- Rompeu-se com o viver tradicional e Chefes das Terras, as pessoas já viviam
sobre o controlo da Frelimo e levavam uma vida melhor que aquela do regime
1973 e colonial.
1974 - O antigo presidente moçambicano, o senhor Joaquim Alberto Chissano passou
pela primeira vez em 1974 das aldeias para colocar grupos dinamizadores e falar
com a população concentrar-se nas zonas seguras.
- O país alcançava a independência e as pessoas lutavam para construir uma nova
1975 moçambicanidade.
- As pessoas foram mobilizadas para a criação das aldeias comunais e também
1976 e foram assolados pelas calamidades naturais.
1977 - Foi fundada a localidade de 03 de Fevereiro, como aldeia comunal.
- Fundação do centro comunal, centro das camisolas e várias cooperativas.
1979 - Fundação da rádio de comunicação local.
- Fundação da escola primária.
- Grande Crise, tinha falta de alimentos, escassez de produtos nas barracas, a chuva
1983 não caía.
1984 - A civil se faz sentir pela primeira vez na aldeia de 03 de Fevereiro.
1986 - Morre o primeiro secretário da Frelimo na aldeia de 03 de Fevereiro.
- As pessoas refugiaram-se para Xinavane porque os soldados da Renamo abateram
1987 a coluna de soldados da Frelimo no dia 29 de Novembro de 1987.
- Foi montada uma vedação eléctrica em Xinavane para proteger as pessoas dos
1988 ataques.
- Os secretários foram pedir apoio em minas para combater os ataques dos soldados
1989 da Renamo.
1992 - Acordo Geral da Paz.
- Nesse ano maior parte das pessoas que refugiaram-se para Xinavane já tinham
1993 regressado a aldeia de 03 de Fevereiro.
1994 - Reconstrução da escola.
- Construção de seis (6) salas de aulas e residências para professores por uma
1995 - organização não-governamental. E nesse período os professores e alunos tiveram
1996 pela primeira vez um local próprio para trabalhar.
20. CONCLUSÃO

As ideias que aqui foram discutidas têm suas origens nos primeiros habitantes no espaço onde
hoje temos a localidade de 03 de Fevereiro, provenientes da região da Massinga s fixaram
suas residências nesta região por terem encontrado um espaço ecúmeno ou habitável, isso no
tempo colonial, as pessoas tiveram que cumprir os interesses dos opressores.

Durante todo o processo da pesquisa conclui-se que depois da independência a organização


social foi alterada porque os Régulos e Chefes das Terras trabalhavam para o regime colonial,
estavam a favor da colonização e não da independência que até revoltaram-se contra os
outros Moçambicanos durante a Luta de Libertação. Deixar eles como chefes das novas
aldeias, construídas sem os colonos seria facilitar o processo para o colono voltar a colonizar
as pessoas ou o povo.

A localidade de 03 de Fevereiro quando foi fundada não constituía uma localidade mas sim
uma aldeia comunal, que mais tarde veio a ser localidade, não muito habitada como dias
actuais. Com a pesquisa concluiu-se que as aldeias comunais tiveram duas origens, a
mobilização da população e as calamidades naturais, isso fala-se de todo o território nacional,
mas de acordo com os dados aqui discutidos, a aldeia comunal de 03 de Fevereiro é
consequência das calamidades naturais dos anos 1976 e 1977.

A história da localidade de 03 de Fevereiro faz parte da história nacional, porque tem as


mesmas características com a história nacional, os membros da localidade de 03 Fevereiro
passaram quase por tudo que as comunidades do país passaram, foram colonizados, passaram
fome e a guerra civil. Quem conhece a história da localidade de 03 de Fevereiro têm pré-
conhecimento da história nacional e pode compreender com muita facilidade.
21. CONSTRANGIMENTOS

Constrangimentos sempre existem dentro do caminho de quem deseja vencer. Enfrentei mais
dificuldades na obtenção de informações por parte de alguns membros da localidade que
tentei questionar sobre alguns dados. Outros alegavam não saber nada, alguns alegavam que
eu quero ganhar dinheiro por conta deles. Mas não perdi a esperança e trabalhei com aqueles
que humildemente abriram seus corações e forneceram as informações.

Uma outra dificuldade que enfrentei foi de trabalhar com computador emprestado, não
trabalhava sempre que ganhava a inspiração, tinha que ser o mais humilde para poder ter
alguém que me emprestasse o computador para escrever.

22. RECOMEDAÇÕES

As recomendações que tenho endereço aos membros da localidade que não devem dificultar a
vida dos seus filhos sempre que têm uma pesquisa por fazer ainda por cima em casa deles,
mas também devem ser abertos a todos investigadores de fora, desde que tenham passado do
posto administrativo apresentar o documento ou pedir o documento que lhes permite
trabalhar com as comunidades. Apelo também a todos jovens estudantes a abraçarem a escola
e terem hábito de fazer boas acções para a nossa localidade e o nosso país no geral. A
localidade está em nossas mãos jovens.
23. BIBLIOGRAFIA

ARAÚJO, Manuel G. M., O sistema de aldeias comunais em Moçambique: transformações


na organização do espaço residencial e produtivo. Lisboa, GTP-01. 1988.

GIL, A. Carlos, Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 6ªed, São Paulo, Editora Atlas S.A.
2008.

BLOCH, Marc, A história, os homens e o tempo. Rio de Janeiro, Jorge Zahar ed, 2001.

SILVA, F. Ribeiro, História local: objectivos, métodos e fontes. S.l, s. ed., s.d.

BARROS, C. H. Farias, Ensino de história, memória e história local. S.l., s.ed., s.d.
24. APÊNDICES

Nesta folha irei colocar as perguntas que me ajudaram na recolha de dados ou que guiaram a
pesquisa.

1. Fundação da localidade de 03deFevereiro, (quando? Como?).


2. 03 de Fevereiro no tempo colonial e a origem de nome Lhalaleni.
3. Organização administrativa: Chefe máximo, chefe das terras, chefe das aldeias, etc.
4. Como era feito o processo de sucessão do poder após morte do antigo chefe.
5. Responsáveis pela segurança social;
6. Práticas culturais (tipos de cerimónias e danças tradicionais) e responsáveis pela
realização das cerimónias sócias (como eram chamados).
7. Organização social:
8. Como é que era organizado a comunidade (clãs, grupos, etc.).
9. Chefes das aldeias e suas funções;
10. Comunicação, organização de encontros sociais e mensageiros.
11. Economia e sustento social: Prática da agricultura (principais produtos), Criação do
gado (pastorícia),Comércio e movimento migratória á África do Sul;
12. Tipos de tributos pagos ao chefe da aldeia.
13. Decadência do viver tradicional.
14. 03 de Fevereiro depois da independência.
15. Liderança da FRELIMO e Mudanças locais.
16. Primeiro secretário da FRELIMO e suas funções.
17. Como é que a localidade estava organizada.
18. Como é que foi feito o processo de delimitação dos bairros.
19. Secretários dos bairros e suas funções;
20. Crise do ano 1983 e suas consequências.
21. Guerra civil e suas consequências.
22. Momento da construção da primeira escola.
23. Dificuldades enfrentadas.
25. ANEXOS

Nesta página irei anexar algumas imagens que provam a veracidade dos assuntos aqui
desenvolvidos. A imagem abaixo revela o estado actual do centro comunal de 03 de
Fevereiro, é nessa casa que eram resolvidos os problemas locais e onde trabalhava o primeiro
secretário e todos que pertenciam a estrutura administrativa da localidade.

Das duas imagens abaixo, a primeira é das seis primeiras salas construídas por uma
organização não-governamental, receberam uma reabilitação recentemente e a segunda
imagem era uma cooperativa que pertencia ao centro comunal de 03 de Fevereiro