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Poder Judiciário da União

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS


TERRITÓRIOS

18VARCVBSB
18ª Vara Cível de Brasília

Número do processo: 0731316-25.2017.8.07.0001

Classe judicial: PROCEDIMENTO COMUM (7)

AUTOR: BRB FUNDO DE INVESTIMENTO EM RENDA FIXA CREDITO PRIVADO LONGO


PRAZO

RÉU: LSH BARRA EMPREENDIMENTOS IMOBILIARIOS S.A.

SENTENÇA

I. RELATÓRIO

Trata-se de ação anulatória, com pedido de tutela provisória, ajuizada BRB FUNDO DE
INVESTIMENTO EM RENDA FIXA CREDITO PRIVADO LONGO PRAZO em desfavor de LSH
BARRA EMPREENDIMENTOS IMOBILIARIOS S.A., partes qualificadas nos autos.

Narra a parte autora que, em 25.05.2017, foi realizada Assembléia Geral dos Titulares de Debêntures da
4ª Emissão de Debêntures Simples, Não Conversíveis em Ações, da Espécie com Garantia Real, em Série
Única da ré. Aduz que, ao ser instalada a Assembléia, foi votada questão de ordem que culminou no
impedimento do seu exercício de voto, sob o argumento de que sua administradora seria a mesma do
fundo controlador da companhia requerida, o que caracterizaria conflito de interesses. Alega que, pela
mesma razão, foi determinada a exclusão das debêntures do autor para fins de cálculo de instalação e
deliberação de Assembléia. Por essa razão, entende devida a anulação da Assembléia, ou,
subsidiariamente, sejam seus votos computados.

Tece consideração acerca do direito aplicado e pleiteia, liminarmente, a suspensão dos efeitos das
deliberações tomadas na assembléia de debenturistas, realizada em 25.05.2017. No mérito, pugna pela a)
anulação da assembleia de debenturistas da Ré realizada em 25/05/2017, determinando-se a convocação
de nova assembleia pelo Agente Fiduciário, garantido o pleno direito de exercício de voto pelo BRB
FIRF; ou, alternativamente, b) determinação de cômputo dos votos emitidos pelo Autor, nos termos do
OFÍCIO DTVM DIRGE-2017/004, com efeitos modificativos das decisões tomadas em Assembleia em
razão do quórum de aprovação das matérias objeto da ordem do dia e das deliberações constantes na Ata.

Juntou documentos.

Indeferida a antecipação de tutela (ID 11334864).

Número do documento: 18062910033890400000018186426


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Citada, a demandada LSH Barra Empreendimentos Imobiliários S.A. apresenta contestação (ID
13333822). Em sede de preliminar, aduz litisconsórcio passivo necessário unitário, uma vez que eventual
anulação irá acarretar modificação em direitos dos demais debenturistas. No mérito, sustenta que: a) o
autor integra o grupo econômico do BRB Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A (BRB
DTVM); b) o requerente foi utilizado pelo BRB DTVM como meio para aquisição de debêntures emitidas
pela ré; c) por essa razão, o “grupo BRB” teria passado a atuar, ao mesmo tempo, como administrador,
acionista indireto e coordenador líder; d) tal fato caracterizaria conflito de interesses; e) o autor, portanto,
é fundo de investimento administrado pela BRB DTVM, que adquiriu debêntures no mercado secundário;
f) assim, o BRB DTVM teria adquirido debêntures emitidas sob a sua própria coordenação; g) um dia
antes da Assembléia, em 24.05.2017, o BRB DTVM renunciou à função de administrador para se
antecipar à sua destituição, em virtude do conflito de interesses; h) não há qualquer vício na Assembléia
realizada em 25.05.2017; i) a autora, enquanto administradora, tomou várias medidas para se valer como
credora; j) a requerente se posiciona de maneira conflitante com todos os demais debenturistas. Juntou
documentos.

Réplica (ID 14312205).

Vieram-me os autos conclusos.

É o relatório. DECIDO.

II. FUNDAMENTAÇÃO

Procedo ao julgamento conforme o estado do processo, nos moldes do artigo 354 do CPC, porquanto não
há a necessidade de produção de outras provas, o que atrai a normatividade do artigo 355, inciso I, do
Novo Código de Processo Civil.

No mais, o Juiz, como destinatário final das provas, tem o dever de apreciá-las independentemente do
sujeito que as tiver promovido, indicando na decisão as razões da formação de seu convencimento
consoante disposição do artigo 371 do NCPC, ficando incumbido de indeferir as provas inúteis ou
protelatórias, consoante dicção do artigo 370, parágrafo único, do mesmo diploma normativo.

A sua efetiva realização não configura cerceamento de defesa, não sendo faculdade do Magistrado, e sim
dever, a corroborar com o princípio constitucional da razoável duração do processo – artigo 5º, inciso
LXXVIII da CF c/c artigos 1º e 4º do NCPC.

Do mérito

O ponto controvertido da demanda cinge-se em determinar se houve nulidade em Assembléia realizada


que limitou direitos da autora.

A parte autora alega que é credora de debêntures da ré e que, em 25.05.2017, em Assembléia, foi
determinada a exclusão de seu direito de voto e desconsiderada para fins de quórum, sob alegação de
conflito de interesse, que defende inexistir.

Por outro lado, a parte ré argumenta que a parte autora, de forma indireta, é credora e administradora da
ré, motivo pelo qual foi declarado o conflito e tomadas as medidas adequadas para proteger o direito dos
demais debenturistas.

De acordo com a BM&F Bovespa, “debênture é um título de dívida que gera um direito de crédito ao
investidor. Ou seja, o mesmo terá direito a receber uma remuneração do emissor (geralmente juros) e
periodicamente ou quando do vencimento do título receberá de volta o valor investido (principal). No
Brasil, as debêntures constituem uma das formas mais antigas de captação de recursos por meio de
títulos”[1].

Número do documento: 18062910033890400000018186426


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A Lei 6.404/76, que dispõe sobre Sociedade por Ações e trata, dentre outros temas, das debêntures, dispõe
sobre a possibilidade dos debenturistas se reunirem a qualquer tempo para discutirem questões de
interesse comum, aplicando-se as regras previstas para Assembléia Geral dos acionistas, conforme art. 71,
§2º:

Art. 71. Os titulares de debêntures da mesma emissão ou série podem, a qualquer tempo, reunir-se em
assembléia a fim de deliberar sobre matéria de interesse da comunhão dos debenturistas.

§ 2º Aplica-se à assembléia de debenturistas, no que couber, o disposto nesta Lei sobre a


assembléia-geral de acionistas.

Observando-se tal disposição, a Lei, ao tratar da Assembléia Geral dos Acionistas, dispõe que é possível
suspender o exercício de direitos do acionista:

Art. 122. Compete privativamente à assembleia geral:

V - suspender o exercício dos direitos do acionista (art. 120);

A restrição de qualquer direito deve ser precedida de ampla defesa e de contraditório, o que, nesse caso,
foi garantido.

A parte autora, BRB Fundo de investimento em renda fixa crédito privado longo prazo, é administrada
pela BRB Distribuidora de títulos e valores mobiliários S.A (BRB DTVM), conforme art. 4º do seu
regulamento (ID 15589468 – Pág. 1).

Enquanto a requerente sustenta que tal situação não influencia na gestão das debêntures por ela
adquiridos, a parte ré argumenta que o conflito de interesses se dá em virtude da administradora da autora
ser também administradora da ré.

A BRB DTVM, enquanto administradora da autora, possui a atribuição de geri-la, inclusive realizando
investimentos. A requerente adquiriu debêntures da ré, que somente se pode concluir que realizou o ato
através da sua administradora, justamente a responsável por esse tipo de negociação. Portanto, resta clara
a relação íntima entre autora e a administradora BRB DVTM.

Assim, foi garantido o contraditório e a ampla defesa à autora, por meio de sua administradora, que,
convocada para Assembléia em 09.05.2017, a ser realizada em 24.05.2017, ou seja, com conhecimento
prévio acerca da deliberação sobre “potencial conflito de interesse da BRB DTVM e necessidade de
substituição da administração do Fundo”, na oportunidade renunciou ao cargo de administradora do
Fundo (ID 13334015 – Pág. 5).

A Assembleia discutiu, portanto, a existência de conflito de interesse da BRB DTVM em virtude de ser
ela administradora da ré e, ao mesmo tempo, administradora da autora, que possui debêntures da
requerida.

A Lei 6.404/76 dispõe acerca da vedação de intervenção do administrador quando tiver interesse
conflitante com o da Companhia, nos seguintes termos:

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Art. 156. É vedado ao administrador intervir em qualquer operação social em que tiver interesse
conflitante com o da companhia, bem como na deliberação que a respeito tomarem os demais
administradores, cumprindo-lhe cientificá-los do seu impedimento e fazer consignar, em ata de reunião
do conselho de administração ou da diretoria, a natureza e extensão do seu interesse.

A BRB DTVM, enquanto administradora da ré, teve importante participação na elaboração e gestão de
atos da Companhia. A BRB DTVM, enquanto administradora da autora, igualmente teve relevante
participação na aquisição pela autora de debêntures vendidas pela ré, gerida pela BRB DTVM.

A redundância dos termos acima se mostra necessária para ficar clara a existência de envolvimento da
BRB DTVM em ambos os pólos de negociação, o que comprova o efetivo conflito de interesses, motivo
pelo qual a Assembléia realizada em 25.05.2017 deliberou pela restrição de direitos da autora,
administrada pela BRB DTVM.

Portanto, há fundadas razões para concluir pelo conflito de interesses, o que legitima a decisão tomada em
Assembléia de retirar o direito de voto da autora e desconsiderá-la para fins de contabilizar o quórum.

Sendo assim, não vislumbro qualquer nulidade na Assembléia realizada dia 25.05.2017, a qual,
vislumbrando conflito de interesses, demonstrado nos presentes autos, restringiu direitos da autora em
conformidade com as disposições da Lei 6.404/76.

Gizadas estas razões, outro caminho não há senão o da improcedência dos pedidos aduzidos na inicial.

E é justamente o que faço.

[1]
http://www.bmfbovespa.com.br/pt_br/produtos/listados-a-vista-e-derivativos/renda-fixa-privada-e-publica/debentur

III. DISPOSITIVO

Tecidas estas considerações, JULGO IMPROCEDENTES os pedidos formulados por BRB FUNDO
DE INVESTIMENTO EM RENDA FIXA CREDITO PRIVADO LONGO PRAZO em desfavor de
LSH BARRA EMPREENDIMENTOS IMOBILIARIOS S.A., partes qualificadas nos autos.

Por conseguinte, resolvo o mérito do processo nos termos do art. 487, inciso I, do Código de Processo
Civil.

Em razão da sucumbência, condeno a parte autora no pagamento das custas, despesas processuais e dos
honorários advocatícios, que ora fixo em 10% sobre o valor da causa, nos termos do art. 85, §2º, do
Código de Processo Civil.

Transitada em julgado, intimando-se ao recolhimento das custas finais eventualmente em aberto, dê-se
baixa e arquivem-se.

Sentença registrada nesta data. Publique-se e intimem-se.

Brasília-DF, 29 de junho de 2018.

Número do documento: 18062910033890400000018186426


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Luciano dos Santos Mendes
Juiz de Direito Substituto

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