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Superior Tribunal de Justiça

RECURSO ESPECIAL Nº 1.633.785 - SP (2016/0278977-3)

RELATOR : MINISTRO RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA


RECORRENTE : ITAU UNIBANCO S.A
ADVOGADOS : SAMANTA REGINA MENDES CANTOLI - SP177423
MARCOS CAVALCANTE DE OLIVEIRA - SP244461A
BRUNO MARQUES BENSAL E OUTRO(S) - SP328942
RECORRIDO : RICARDO PAULINO OLIVEIRA
ADVOGADO : MÁRIO AGUIAR PEREIRA FILHO - SP032877

DECISÃO
Trata-se de recurso especial interposto por ITAU UNIBANCO S.A., com
fundamento no artigo 105, inciso III, alíneas "a" e "c", da Constituição Federal, contra acórdão
do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo assim ementado:
"RESPONSABILIDADE CIVIL – Banco - Conta corrente – Movimentações
realizadas na conta corrente do Autor sem conhecimento ou autorização do
correntista – Aplicação do CDC – Inversão do ônus da prova – Banco-réu não
comprovou que as movimentações foram realizadas pelo correntista ou por
terceiros por ele autorizados - Ônus da prova era do Banco-réu – Aplicação do
art. 6º, VIII, do CDC - Responsabilidade objetiva do Banco pelo fato do produto e
do serviço (cf. arts. 12 a 14 do CDC), bem como pelo vício do produto e do
serviço (cf. arts. 18 a 20, 21, 23 e 24 do CDC) - Ato ilícito e falha na prestação do
serviço bancário – Responsabilidade objetiva do Banco-réu, a par da sua
responsabilidade também resultar do risco integral de sua atividade econômica –
Precedentes do Colendo STJ - Responsabilidade configurada – Inexigibilidade da
dívida e restituição dos valores indevidamente sacados - Cabimento. DANO
MORAL - Ocorrência – Prova – Desnecessidade - Inscrição indevida do nome do
Autor em cadastros de inadimplentes mantidos por órgãos de proteção ao crédito
– Fonte geradora de dano moral – Dano "in re ipsa" – Pretensão ao recebimento
de indenização no valor da "importância indevidamente inscrita nos órgãos de
proteção ao crédito" – Possibilidade - Indenização fixada em R$ 14.716,59 –
Atualização monetária a partir da data deste acórdão - Juros legais desde a
citação – Ônus da sucumbência atribuído ao Banco-réu - Sentença reformada
apenas no tocante ao cabimento de indenização por danos morais. Recursos do
Autor provido e do Banco-réu desprovido" (fl. 799, e-STJ).

Os embargos de declaração opostos foram rejeitados.


No recurso especial, além de divergência jurisprudencial o recorrente indica
violação dos seguintes dispositivos legais com as respectivas teses:
i) artigo 535, inciso II, do Código de Processo Civil de 1973 - o Tribunal de origem
deixou de se manifestar expressamente acerca de diversos dispositivos indicados como
violados,
ii) artigos 6º, VIII, e 14, § 3º, II, do Código de Defesa do Consumidor e 131, 145,
333, II, e 436 do CPC/1973 - o recorrente produziu a prova que lhe competia e que a
responsabilidade foi exclusiva da vítima ou de terceiro,

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iii) artigos 2º, 128, 282, III, e 460 do CPC/1973 e 884 do Código Civil - a
condenação se deu além do pedido realizado na inicial,
iv) 188, I, do CC - não há dano moral pois agiu no exercício regular do direito.
Contrarrazões apresentadas (fl. 875, e-STJ).
É o relatório. DECIDO.
O inconformismo não comporta acolhimento.
Inicialmente, no tocante à alegada negativa de prestação jurisdicional, agiu
corretamente o Tribunal de origem ao rejeitar os embargos declaratórios por inexistir omissão,
contradição ou obscuridade no acórdão embargado, denotando, em verdade, o intuito
infringente da irresignação, que objetivava a reforma do julgado por via processual inadequada.
Ademais, se o propósito principal dos embargos de declaração era o prequestionamento dos
dispositivos legais tidos como violados, não há falar em violação do artigo 535, inciso II, do
CPC/1973 quando tal requisito recursal não se apresentará como óbice no caso concreto.
Ademais, os arts. 2º, 128, 282, III, e 460 do CPC/1973 e 884 do Código Civil não
foram prequestionados, incidindo, portanto, o teor da Súmula nº 282/STF.
Esclareça-se que não configura contradição afirmar a falta de prequestionamento
e afastar indicação de afronta ao art. 535 do Código de Processo Civil, visto que é
perfeitamente possível o julgado se encontrar devidamente fundamentado sem, no entanto, ter
sido decidida a causa à luz dos preceitos jurídicos desejados pelo postulante, pois a tal não
está obrigado.
Nesse sentido:
"ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL NO
AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ALEGADA NEGATIVA DE PRESTAÇÃO
JURISDICIONAL. AFRONTA AO ART. 535 DO CPC NÃO CONFIGURADA.
ALEGADA OFENSA AOS ARTS. 403 DO CÓDIGO CIVIL, 131, 267, IX, 237, § 3º,
475-O E 547 A 555 DO CPC. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULA
211/STJ. FUNDAMENTAÇÃO DEFICIENTE. SUMULA 284/STF.
RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. FALHA NO ATENDIMENTO
HOSPITALAR. MORTE DO PAI DA AUTORA. DEVER DE INDENIZAR.
REEXAME. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7/STJ. AGRAVO REGIMENTAL
IMPROVIDO.
I. Não há falar, na hipótese, em violação ao art. 535 do CPC, porquanto a
prestação jurisdicional foi dada na medida da pretensão deduzida, de vez que o
voto condutor do acórdão recorrido apreciou fundamentadamente, de modo
coerente e completo, as questões necessárias à solução da controvérsia,
dando-lhes, contudo, solução jurídica diversa da pretendida.
II. Em relação aos arts. 403 do Código Civil, 131, 267, IX, 237, § 3º, 475-O e
547 a 555 do CPC, o Recurso Especial é manifestamente inadmissível, por falta
de prequestionamento, pelo que incide, na espécie, quanto ao referido ponto, o
óbice do enunciado da Súmula 211/STJ.
III. Não há impropriedade em afirmar a falta de prequestionamento e afastar a
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indicação de afronta ao art. 535 do CPC, haja vista que o julgado está
devidamente fundamentado, sem, no entanto, ter decidido a causa à luz dos
preceitos jurídicos suscitados pelo recorrente, pois não está o julgador a tal
obrigado.
(...)
VI. Agravo Regimental improvido" (AgRg no AREsp 401.669/RJ, Rel. Ministra
ASSUSETE MAGALHÃES, SEGUNDA TURMA, julgado em 17/03/2016, DJe
30/03/2016).

Quanto ao mérito, o Tribunal de origem registra o seguinte:


"Ocorre que não há nos autos comprovação de que as
movimentações teriam sido realizadas pelo próprio correntista, ou ainda por
terceiros por ele autorizados. A entidade financeira poderia fazê-lo, por exemplo,
exibindo gravações de imagens das agências ou dos caixas eletrônicos onde
foram efetuadas tais movimentações, mas nada disso foi feito. O Banco-réu,
ademais, insinua que os débitos poderiam ter sido causados por terceiros
estelionatários, o que excluiria a sua responsabilidade, mas não traz qualquer
prova do alegado.
Nem se diga que a perícia realizada nestes autos afastaria a
responsabilidade do Banco-réu e encerraria a questão, já que a prova pericial
não é absoluta e deve ser analisada conjuntamente com as alegações das partes
e demais provas produzidas nos autos.
(...)
Nada evidencia, por outro lado, ter sido o correntista cliente do
Banco-réu há mais 20 anos - negligente em relação à guarda do cartão e da
senha de acesso. Nem que ele estivesse conluiado com os beneficiários dos
saques. Tampouco se imputou conduta desabonadora ao seu passado que
pudesse dar colorido duvidoso ao histórico narrado na petição inicial.
Ora, se algum desses fatos ocorreu, cabia ao Banco-réu fazer a
prova respectiva, quer porque está sujeito às normas do CDC (cf. Súmula 297 do
Colendo STJ), em nada alterando tal enunciado o fato da relação contratual entre
as partes estar consubstanciada em contrato de conta bancária, quer porque não
podia ignorar, como fornecedor de crédito e de serviços, que as regras do ônus
da prova, de acordo com o art. 6º, VIII, do CDC, podem ser invertidas,
notadamente por ser verossímil a alegação do Autor e por ser ele hipossuficiente
- como é natural, aliás, em qualquer relação jurídica estabelecida entre cliente e
entidade financeira.
(...)
Se o Banco-réu não provou que o correntista deu causa a que
terceiros realizassem as movimentações financeiras, nem que estivesse
associado a meliantes, ou negligenciou o uso do cartão e senha, deveria mesmo
ter efetuado a restituição dos valores retirados indevidamente da conta corrente.
Não se pode ignorar a responsabilidade objetiva do fornecedor
pelo fato do produto e do serviço (cf. arts. 12 a 14 do CDC), bem como pelo vício
do produto e do serviço (cf. arts. 18 a 20, 21, 23 e 24). Nesse sentido é a Súmula
479 do STJ: 'As instituições financeiras respondem objetivamente pelos danos
gerados por fortuito interno relativo a fraudes e delitos praticados por terceiros no
âmbito de operações bancárias'.
Do ponto de vista do dever de indenizar, a responsabilidade civil do
banco é oriunda do risco integral de sua atividade econômica (cf. Luiz Antonio
Rizzatto Nunes, em Comentários ao Código de Defesa do Consumidor, Saraiva,
1ª ed., 2000, p. 153, comentário ao art. 12) e só não é responsabilizado se provar
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a culpa exclusiva do consumidor (cf. § 3º, inciso III, do art. 12), o que
definitivamente não é o caso.
(...)
No concernente aos danos morais, são conhecidos os casos em
que não há discussão sobre o cabimento do dano moral (cf. arts. 5º, V e X, da CF
e 186, do CC de 2002) e entre esses está a inscrição indevida em órgãos que
cadastram os inadimplentes (SERASA, SPC etc.) e que emitem listas deles para
conhecimento geral (cf. Humberto Theodoro Júnior, Dano moral, ed. Juarez de
Oliveira, 4ª ed., 2001, p. 101), ou a manutenção indevida destas inscrições, além
do protesto indevido de título de crédito. Pode ser acrescentada também a
hipótese em que o indivíduo tem vedado o seu acesso ao crédito, ou às compras.
Afinal, dizer de alguém inadimplente, quando não o é e essa foi a
ideia gerada por situação criada pelo Banco-réu -, implica ofensa à honra e à
dignidade da pessoa, vítima do erro. Aí estão a ação e a lesão (in re ipsa),
resultando ao Banco-réu o dever de indenizar, dispensada qualquer outra prova.
Notadamente porque não se há 'falar em prova do dano moral, mas, sim, na
prova do fato que gerou a dor, o sofrimento, sentimentos íntimos que o ensejam.
Provado assim o fato, impõe-se a condenação' (cf. REsp. 86.271-SP, rel. Min.
Carlos Alberto Menezes Direito).
Depois, todos sabem, e aqui não foi diferente, dos transtornos para
resolver tais acontecidos, com idas e vindas ao Banco, má vontade de
funcionários e outros dissabores bem conhecidos dos usuários. Muito
provavelmente, é de se acreditar, não em decorrência da vontade da entidade
bancária, porém consequência do natural gigantismo burocrático.
Enfim, por tudo é forçoso concluir pela presença da dor moral, que
deve ser indenizada" (fls. 800-802 e 804, e-STJ).

Dessa forma, rever tais conclusões demandaria o reexame de matéria


fático-probatória, o que é inviável em sede de recurso especial, nos termos da Súmula nº 7/STJ:
"a pretensão de simples reexame de prova não enseja recurso especial".
Ante o exposto, nego provimento ao recurso especial.
Publique-se. Intimem-se.
Brasília-DF, 27 de fevereiro de 2017.

Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA - Relator

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